Mercado de trabalho

Estudo aponta que fim obrigatório da escala 6x1 colocaria Brasil em modelo raro até entre países desenvolvidos

Levantamento do economista Daniel Duque indica que exigência de dois dias obrigatórios de descanso semanal não é predominante nem em nações com jornadas menores que a brasileira.

Estudo aponta que modelo de dois dias obrigatórios de folga por semana previsto na PEC não é predominante nem em diversos países desenvolvidos - Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Publicado em 31/05/2026, às 17h21

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A proposta aprovada pela Câmara dos Deputados que reduz a jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas e extingue gradualmente a escala 6x1 pode colocar o Brasil em um modelo trabalhista considerado incomum até mesmo entre países desenvolvidos. A avaliação faz parte de um levantamento elaborado pelo economista Daniel Duque, pesquisador do FGV Ibre e colaborador do Centro de Liderança Pública (CLP).

A Proposta de Emenda à Constituição aprovada nesta quarta-feira (27) estabelece, na prática, a adoção da escala 5x2 para a maior parte dos trabalhadores brasileiros, garantindo dois dias obrigatórios de descanso semanal e reduzindo a carga horária máxima de trabalho para 40 horas por semana. O texto ainda precisa ser analisado pelo Senado Federal e necessita de pelo menos 49 votos favoráveis em dois turnos para ser promulgado.

O estudo conduzido por Daniel Duque analisou a legislação trabalhista de 21 países e concluiu que a obrigatoriedade de dois dias de folga por semana não representa o padrão predominante no exterior, mesmo em economias avançadas que já possuem jornadas semanais inferiores às praticadas atualmente no Brasil.

Segundo o pesquisador, o foco da análise não está apenas na redução da carga horária semanal, mas principalmente na exigência legal de dois dias obrigatórios de descanso. De acordo com o levantamento, a regra mais comum em diversos países é a garantia de um dia de folga semanal ou períodos mínimos de descanso consecutivo equivalentes a cerca de 36 horas.

Nas palavras de Duque, a mudança colocaria o Brasil em um cenário ainda pouco explorado internacionalmente. O economista afirma que existem poucas evidências sobre os impactos de longo prazo de uma legislação que torne obrigatória a adoção universal da escala 5x2.

O estudo aponta que nem mesmo países conhecidos por jornadas reduzidas exigem obrigatoriamente dois dias de folga semanais. Na França, por exemplo, a carga legal é de 35 horas por semana, mas a distribuição desse tempo pode ocorrer ao longo de até seis dias de trabalho. Situação semelhante ocorre em países como Espanha, Holanda e África do Sul.

Entre os exemplos analisados, a Argentina aparece como um dos modelos mais próximos da escala 5x2. Ainda assim, a legislação argentina permite situações em que o trabalhador tenha apenas um dia de descanso durante a semana, dependendo da organização da jornada.

O relatório também destaca possíveis efeitos positivos e negativos da mudança. Entre os benefícios apontados está o aumento do tempo de descanso dos trabalhadores e a possibilidade de melhoria na qualidade de vida. Por outro lado, o estudo alerta para impactos sobre a organização das jornadas, produtividade e custos operacionais de determinados setores econômicos.

Daniel Duque argumenta que trabalhadores possuem necessidades diferentes e que modelos mais flexíveis podem atender melhor determinadas realidades. Segundo ele, jornadas distribuídas ao longo de seis dias permitem cargas diárias menores, enquanto a concentração em cinco dias pode exigir períodos mais longos de trabalho por dia.

A proposta aprovada pela Câmara prevê uma implementação gradual. O texto estabelece que a jornada máxima cairá inicialmente para 42 horas semanais após a promulgação da emenda. Posteriormente, após um período de transição, o limite será reduzido para 40 horas semanais. Além disso, empresas e categorias profissionais terão prazo para renegociar acordos coletivos e adaptar suas operações às novas regras.

O debate sobre a redução da jornada de trabalho ganhou força nos últimos meses impulsionado pelo movimento Vida Além do Trabalho, conhecido pela sigla VAT, que passou a defender o fim da escala 6x1 e mudanças nas relações trabalhistas brasileiras.

Enquanto defensores da proposta afirmam que a mudança representa um avanço nas condições de trabalho e na qualidade de vida dos trabalhadores, representantes do setor produtivo alertam para possíveis impactos sobre custos, contratações e competitividade da economia brasileira.

 

Com a chegada da proposta ao Senado, a discussão sobre o futuro da jornada de trabalho promete se tornar um dos temas centrais do debate econômico e político nacional nos próximos meses.

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