Andrei Rodrigues classificou como um "equívoco" a decisão do governo norte-americano de enquadrar as facções brasileiras como grupos terroristas. Para o chefe da Polícia Federal, organizações criminosas buscam lucro, enquanto o terrorismo possui motivações ideológicas ou religiosas.
Redação Publicado em 05/06/2026, às 14h53
A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas passou a valer nesta sexta-feira (5), mas recebeu críticas da cúpula da Polícia Federal brasileira.
Em entrevista à TV Globo, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que a medida adotada por Washington representa um "equívoco conceitual" e destacou que o combate ao crime organizado exige estratégias diferentes daquelas utilizadas contra grupos terroristas.
Segundo Rodrigues, embora as facções espalhem medo e violência, suas atividades são guiadas principalmente pelo lucro obtido por meio de crimes como tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e contrabando. Já organizações terroristas costumam atuar motivadas por questões ideológicas, religiosas ou políticas.
"O crime organizado busca lucro. O terrorismo possui outros objetivos. Confundir essas categorias pode gerar estratégias inadequadas de enfrentamento", afirmou o diretor da PF.
A declaração ocorre poucos dias após o governo norte-americano incluir PCC e Comando Vermelho em sua lista oficial de organizações terroristas internacionais. A medida amplia o poder das autoridades dos EUA para aplicar sanções financeiras, monitorar movimentações e ampliar investigações relacionadas aos grupos.
Estratégia brasileira não muda
Apesar da classificação adotada pelos Estados Unidos, Andrei Rodrigues garantiu que a política de combate às facções no Brasil permanecerá inalterada.
De acordo com ele, a Polícia Federal continuará concentrando esforços na prisão de lideranças criminosas, no bloqueio de recursos financeiros e na desarticulação das estruturas econômicas das organizações.
O diretor ressaltou ainda que a decisão americana não possui impacto jurídico direto sobre as ações das autoridades brasileiras.
"Essa definição não altera em nada o vigor com que continuaremos combatendo o crime organizado", afirmou.
Cooperação internacional continua
Embora tenha criticado a classificação, Rodrigues avaliou que a medida pode abrir espaço para ampliar a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no enfrentamento ao crime transnacional.
Entre as prioridades citadas pelo chefe da PF estão o bloqueio do tráfico internacional de armas, a troca de informações de inteligência e a captura de criminosos brasileiros foragidos que estejam em território norte-americano.
Segundo ele, qualquer país disposto a cooperar efetivamente no combate ao crime organizado encontrará na Polícia Federal uma parceira estratégica.
Debate vai além da segurança
Especialistas apontam que a decisão dos EUA também pode gerar reflexos econômicos. Empresas brasileiras que mantêm relações comerciais ou financeiras com o mercado americano poderão enfrentar exigências mais rigorosas de compliance para demonstrar que não possuem qualquer vínculo com organizações classificadas como terroristas.
Nos bastidores, integrantes do governo federal defendem a manutenção do diálogo diplomático com Washington, mas reconhecem que a reversão da medida é considerada improvável no curto prazo.
Enquanto isso, a classificação continua alimentando o debate sobre os limites entre crime organizado e terrorismo e sobre os impactos políticos, jurídicos e econômicos da decisão norte-americana.