Michele Leão Azevedo apresentava traumatismo craniano, hematomas e marcas compatíveis com chicotadas. Médicos estimaram que a policial havia morrido entre quatro e seis horas antes de chegar à unidade de saúde.
Ana Beatriz Silva Publicado em 21/07/2026, às 15h43
Imagens do circuito interno de segurança do prédio onde moravam dois policiais militares registraram os últimos momentos antes de a capitã Michele Leão Azevedo, de 41 anos, ser levada sem vida ao Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte. O marido dela, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, foi preso em flagrante e é investigado pela suspeita de envolvimento na morte.
A gravação mostra Eduardo saindo do elevador do condomínio, localizado no bairro Palmares, na Região Nordeste da capital mineira, carregando Michele nos ombros. O registro foi feito por volta das 21h16 de segunda-feira, 20 de julho. Ele atravessa a garagem, coloca a policial no banco do passageiro e, minutos depois, deixa o local em alta velocidade. Durante a saída, a porta do carro permanece aberta e o corpo da vítima quase cai do veículo.
Michele deu entrada no Hospital Odilon Behrens por volta das 21h35, já sem sinais vitais. A médica responsável pelo atendimento constatou que a capitã apresentava quadro de assistolia, compatível com uma parada cardiorrespiratória ocorrida entre quatro e seis horas antes da chegada à unidade. A estimativa indica que a morte pode ter acontecido ainda durante a tarde de segunda-feira.
Durante o atendimento, os profissionais identificaram diversas lesões pelo corpo da militar. Conforme o boletim de ocorrência, Michele apresentava traumatismo craniano, hematomas, ferimentos e inchaços nas pernas, marcas lineares compatíveis com chicotadas e um corte de grandes proporções na região frontal da cabeça. Diante da quantidade e da gravidade dos ferimentos, a equipe médica acionou a polícia.
Inicialmente, Eduardo teria informado que a esposa havia caído de uma escada dentro do apartamento. Em depoimento, ele afirmou que o casal havia promovido uma festa no imóvel e que, após a saída dos convidados, os dois teriam consumido ecstasy e mantido relações sexuais consensuais envolvendo agressões físicas. Segundo o relato do sargento, Michele teria sofrido a queda posteriormente, mas recusado atendimento médico.
O militar declarou ainda que os dois dormiram e que, horas depois, percebeu que a companheira não reagia a estímulos. Foi nesse momento, segundo a versão apresentada por ele, que decidiu colocá-la no carro e levá-la ao hospital. A Polícia Civil, no entanto, informou que a prisão foi motivada pela pluralidade e pela gravidade das lesões encontradas no corpo da vítima.
Ainda na unidade de saúde, um tenente teria flagrado Eduardo descartando uma caixa metálica com comprimidos de aparência semelhante ao ecstasy em uma lixeira do banheiro. O material foi apreendido e deverá passar por análise.
A perícia também encontrou roupas de cama sendo lavadas dentro do apartamento e recolheu um cabo de madeira quebrado localizado na lixeira do condomínio. De acordo com o registro policial, os investigadores apuram se o objeto possui alguma relação com as lesões apresentadas pela capitã.
Moradores do prédio relataram que discussões entre o casal eram frequentes. O síndico do condomínio afirmou que Michele costumava falar baixo e tentar evitar conflitos, enquanto Eduardo apresentava comportamento considerado explosivo. Segundo ele, alguns vizinhos temiam formalizar reclamações porque os dois eram integrantes da Polícia Militar.
A investigação também deverá ouvir pessoas que participaram da confraternização realizada no apartamento. Um tio de Michele pediu publicamente que os convidados prestem depoimento e esclareçam o que presenciaram antes da morte da policial.
A defesa de Eduardo Abner Pereira de Oliveira afirmou que o caso ainda está em fase inicial e que é necessário aguardar os laudos periciais e a conclusão das investigações. Em nota, o advogado Gustavo Nepomuceno pediu que não sejam realizados julgamentos antecipados e declarou confiar no devido processo legal. O sargento permanece detido em uma unidade da Polícia Militar.
A Polícia Civil busca esclarecer a causa exata da morte, a origem de cada ferimento e o que aconteceu durante as horas que antecederam a chegada da capitã ao hospital.