Denúncia e acolhimento

Unesp vê aumento de denúncias após ampliar ações contra assédio e enfrenta críticas por caso de estupro

Reitora afirma que fortalecimento dos canais de acolhimento encorajou vítimas a denunciar; estudante que acusa professor de estupro relata omissão da universidade

A advogada da estudante critica a postura da universidade e ressalta a importância do acolhimento às vítimas de violência sexual - Imagem: Divulgação/unesp

Letícia Sales Publicado em 31/05/2026, às 08h22

A repercussão da denúncia de estupro envolvendo uma estudante e um professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no campus de São José dos Campos, reacendeu o debate sobre o enfrentamento à violência de gênero dentro das universidades. Enquanto a instituição destaca o crescimento das denúncias como resultado do fortalecimento dos mecanismos de acolhimento, a vítima e sua defesa afirmam que houve demora e negligência na apuração do caso.

A reitora da Unesp, Maysa Furlan, em entrevista para o portal Metrópolis, afirmou que a universidade ampliou nos últimos anos os programas voltados ao combate ao assédio sexual e à conscientização da comunidade acadêmica. Entre as iniciativas estão rodas de conversa, projetos de acolhimento e grupos reflexivos destinados ao público masculino.

“Nós criamos um volume de programas e, mais que isso, o letramento da nossa comunidade, com rodas de discussão, com materiais importantes para que a gente fizesse com que a nossa comunidade enxergasse sentido nessa discussão, absorvesse tudo isso e passasse a discutir”, disse.

Segundo a reitora, o fortalecimento dessas políticas resultou em um aumento das denúncias registradas na Ouvidoria da universidade. Para ela, o crescimento dos relatos não representa necessariamente mais casos ocorrendo, mas sim maior confiança das vítimas nos canais institucionais.

“Quando você oferece estrutura, nós abrimos uma caixa de Pandora. Quando as pessoas veem que realmente está sendo analisado com muita seriedade, com muita lisura, elas se sentem seguras para denunciar”, afirmou.

Furlan também classificou os episódios de assédio e violência sexual como “inaceitáveis” e declarou que “universidade não é casa para hospedar esse tipo de pessoa”.

Após a formalização da denúncia, dois professores passaram a responder a Processos Administrativos Disciplinares (PADs), incluindo o docente apontado como autor do estupro. Ambos foram afastados das funções, medida que deve permanecer em vigor enquanto as apurações continuam.

A estudante Carolina Ferreira, de 21 anos, relatou ter sido vítima de estupro quando cursava o primeiro ano de Odontologia em São José dos Campos. Segundo ela, os impactos emocionais do trauma a levaram a interromper os estudos e buscar ajuda da família antes de denunciar o caso à universidade.

De acordo com a jovem, a resposta inicial da instituição foi insuficiente. Carolina afirma que tentou retomar a graduação posteriormente, mas desistiu diante de ameaças que passou a receber. Atualmente, ela mantém a matrícula suspensa e não pretende voltar ao curso.

As denúncias ganharam ampla repercussão após serem divulgadas nas redes sociais, o que motivou manifestações de estudantes em São Paulo e em São José dos Campos. Após os protestos, o campus assinou um termo de compromisso prevendo medidas de enfrentamento ao assédio, incluindo capacitação obrigatória para docentes.

A advogada Luciana Borsoi, que representa a estudante, criticou a postura inicial da universidade.

“Se não houvesse dado a repercussão que deu, eles não fariam nada, estaria tudo do mesmo jeito. A Carol estaria aí, há três anos sem nenhuma resposta”, declarou.

Paralelamente ao processo administrativo, o professor investigado também é alvo de um inquérito policial. A Justiça concedeu medida protetiva em favor da estudante e de seus familiares, proibindo qualquer aproximação ou contato por parte do docente.

A proteção foi estendida às testemunhas envolvidas no caso. Além disso, a polícia investiga ameaças recebidas pela jovem e por sua família, enviadas por meio de perfis falsos em redes sociais.

Ao comentar a repercussão do caso, Carolina afirmou que espera que sua denúncia ajude outras vítimas a romper o silêncio, embora lamente a forma como foi tratada após tornar pública a acusação.

“Além da dor do ocorrido, existe a descredibilização da minha imagem, da minha palavra, dos meus laudos médicos, dos meus sentimentos e daquilo que eu vivi. Eu já imaginava que enfrentaria resistência, mas não imaginava atitudes tão perversas e tão maldosas”, declarou.

A estudante também destacou a importância do acolhimento às vítimas de violência sexual.

“E, se passar, que ela encontre acolhimento, respeito e amparo, e não julgamento. Esse é, sinceramente, o meu maior desejo”, afirmou.

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