Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, que firmou acordo de delação com o Ministério Público, foi morto na área de desembarque, após ameaças e tentativas de extorsão por facção criminosa
Marina Milani Publicado em 09/11/2024, às 11h17
Antonio Vinicius Lopes Gritzbach, de 38 anos, foi brutalmente assassinado com um tiro de fuzil no rosto na tarde desta sexta-feira (8), na área de desembarque do Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos.
O empresário revelou uma rede intrincada de operações financeiras ilícitas que sustentavam parte do império financeiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). No acordo de delação premiada firmado com o Ministério Público de São Paulo (MPSP), ele detalhou esquemas de lavagem de dinheiro, investimentos em criptomoedas e aquisições de imóveis em nome de terceiros, apontando diretamente para lideranças da facção.
Gritzbach expôs como Anselmo Santa Fausta, conhecido como “Cara Preta”, e Claudio Marcos de Almeida, o “Django”, lavavam milhões por meio da compra e venda de imóveis. Ele explicou que muitos dos imóveis foram registrados em nome de “laranjas” – pessoas que emprestavam seus nomes para ocultar a identidade dos verdadeiros proprietários. As aquisições se concentravam na zona leste de São Paulo, especialmente no bairro do Tatuapé, que se tornou um reduto de operações financeiras e negócios imobiliários da facção.
Um dos pontos mais chocantes de sua delação foi o esquema de investimentos em criptomoedas. Cara Preta teria confiado aproximadamente R$ 200 milhões a Gritzbach para serem aplicados em bitcoins e outros ativos digitais. O objetivo era multiplicar o capital da facção de forma discreta, sem chamar a atenção das autoridades. Entretanto, quando Cara Preta exigiu parte do valor de volta para investir em uma construção, Gritzbach alegou dificuldades para devolver o montante, o que culminou em um intenso desentendimento entre os dois. Segundo o Ministério Público, foi essa disputa que motivou Gritzbach a encomendar o assassinato de Cara Preta e seu motorista, em dezembro de 2021.
Após a morte de Cara Preta, Gritzbach foi chamado para uma reunião em uma casa no Tatuapé, onde Django e outros comparsas do PCC o confrontaram. Ele relatou que foi ameaçado de morte e viu um dos capangas vestir uma luva cirúrgica, sugerindo que ele seria esquartejado caso não colaborasse. Além disso, um dos comparsas chegou a levar uma Ferrari de sua casa como forma de pagamento parcial das dívidas. Essas ameaças foram constantes, e ele relatou que passou semanas recluso, temendo pela própria vida.
Gritzbach também revelou que a empresa de ônibus UpBus, que opera linhas na zona leste de São Paulo, servia como veículo de lavagem de dinheiro para o PCC. A UpBus, gerida por Django e outros associados, estava sob investigação devido ao alto volume de dinheiro em espécie que circulava por ela. A delação de Gritzbach incluiu detalhes sobre como o dinheiro do tráfico de drogas e armas era injetado na empresa, utilizando notas frias e contratos falsos para disfarçar a origem ilícita dos fundos.
A Justiça paralela do PCC, ou “tribunal do crime”, atuava como uma força constante de pressão para que Gritzbach se mantivesse leal e cumprisse com os acordos financeiros, sob pena de retaliação violenta. Em seus depoimentos, ele descreveu como a facção exigia pagamento em espécie, cheques e até bens de alto valor como garantia para as dívidas de criptomoedas e imóveis.
Essas revelações ajudaram o MPSP a formalizar acusações contra Django e outros integrantes do PCC, mas também intensificaram as ameaças à vida de Gritzbach. Mesmo com a oferta de proteção do Ministério Público, ele recusou o serviço, insistindo que estava seguro. Essa confiança, entretanto, se provou fatal, pois, mesmo cercado de seguranças, acabou executado em plena luz do dia no Aeroporto Internacional de São Paulo.