Levantamento Observando o Tietê mostra que desafios ambientais persistem
Gabriela Nogueira Publicado em 18/09/2025, às 20h24
O Rio Tietê permanece em uma situação preocupante, apesar da redução de 15,9% em sua área de poluição, que se reduziu de 207 quilômetros (km) em 2024 para 174 km em 2025. Um estudo recente da Fundação SOS Mata Atlântica revelou que apenas um dos pontos monitorados ao longo da bacia do Tietê apresentou água em condições adequadas. A maioria das amostras coletadas neste ano ainda se enquadra nas categorias regular, ruim ou péssima.
Os resultados fazem parte do relatório "Observando o Tietê", divulgado na véspera do Dia do Rio Tietê, comemorado em 22 de setembro. Com uma extensão de 1.100 km, o Tietê atravessa o estado de São Paulo, passando por áreas urbanas, industriais e rurais.
Gustavo Veronesi, coordenador do projeto Observando os Rios na SOS Mata Atlântica, destacou que as informações obtidas no relatório mostram uma estagnação significativa na melhoria da qualidade das águas. "Apesar da diminuição da mancha de poluição em relação ao ano anterior, os índices ainda são superiores aos de anos anteriores", afirmou.
A análise abrangeu 55 pontos em 41 rios dentro da bacia do Tietê e utilizou o Índice de Qualidade da Água (IQA), que considera diversos parâmetros físicos, químicos e biológicos. O estudo classificou a água em cinco categorias: ótima, boa, regular, ruim ou péssima. Dos pontos monitorados, apenas 1,8% foram classificados como de boa qualidade; a maior parte se manteve nas categorias regular (61,8%), ruim (27,3%) ou péssima (9,1%). Não foram registrados pontos com classificação ótima.
Entre 2016 e 2021, a bacia do Tietê experimentou um ciclo de recuperação. Contudo, desde 2022, a qualidade da água voltou a piorar. Em 2024, a área poluída atingiu seu pico novamente e os trechos com água considerada boa diminuíram.
Veronesi salientou que a piora observada em 2024 não é um fenômeno isolado, mas sim um reflexo de uma tendência negativa iniciada dois anos antes. "A vulnerabilidade do Tietê é alarmante e não há indícios claros de uma recuperação consistente", acrescentou.
A perda acentuada de água com qualidade adequada é motivo de preocupação. No trecho inicial do Tietê entre Salesópolis e Barra Bonita (576 km), o relatório constatou que 120 km apresentavam qualidade ruim e outros 54 km foram classificados como péssimos. Apenas 34 km mostraram água com qualidade boa – uma queda superior a 70% em relação aos 119 km observados no ano anterior.
Embora o aumento dos trechos classificados como regulares represente um avanço frente a cenários passados, essa condição ainda limita o uso múltiplo da água e evidencia a vulnerabilidade do rio.
De acordo com Veronesi, fatores como variações climáticas, descargas e resíduos de esgoto tratados e não tratados afetam drasticamente a qualidade da água. Ele alertou sobre os riscos adicionais trazidos pela diminuição das chuvas nos últimos anos e incidentes como rompimentos de interceptores de esgoto.
A continuidade das obras de despoluição é crucial para reduzir a mancha poluente no Tietê. Veronesi ressaltou a importância de um esforço coletivo para enfrentar essa questão: "Não depende apenas do governo ou das empresas; é necessário um comprometimento social amplo para reverter esse quadro".
A problemática dos resíduos sólidos também foi mencionada por Veronesi. Ele enfatizou que a aplicação inadequada da logística reversa pelas empresas contribui para o descarte irregular e para a poluição dos rios.
As intervenções para despoluir o Tietê devem ser constantes e abrangentes. Veronesi apontou que muitas pessoas na região metropolitana carecem de serviços adequados de saneamento básico e condições dignas de moradia. "É fundamental promover justiça social e melhorar as habitações para garantir acesso à rede de esgoto", concluiu.
A recuperação dos rios não se limita ao tratamento de esgoto; também requer melhor manejo dos resíduos sólidos e planejamento urbano adequado nas áreas ribeirinhas.
As classificações legais da qualidade da água variam conforme os usos predominantes nas diferentes regiões hidrográficas do Tietê. Enquanto algumas áreas são classificadas como Classe Especial ou Classe 1 devido à sua importância como mananciais, muitos trechos urbanos estão relegados à Classe 4, permitindo maior carga poluente.
Veronesi indicou que alguns segmentos continuam com qualidade péssima mesmo após investimentos substanciais em recuperação. Para restaurar efetivamente os rios da bacia do Tietê, é necessário revisar as referências atuais da classificação da água.