Esquema Bilionário

Postos de combustíveis ligados ao PCC são alvo de operação do MPSP

Investigação identificou movimentações irregulares de bilhões, com conexões em setores como hoteleiro e franquias

Esquema envolvia adulteração de combustíveis e uso de fintechs - Imagem: Reprodução / Freepik

William Oliveira Publicado em 25/09/2025, às 08h42

Na manhã de quinta-feira (25), o Ministério Público de São Paulo (MPSP) deflagrou uma operação de grande porte para desarticular um sofisticado esquema criminoso ligado à exploração de jogos de azar e à comercialização de combustíveis adulterados. A ação contou com apoio da Receita Federal, da Secretaria da Fazenda, da Procuradoria-Geral do Estado e da Polícia Militar, resultando no cumprimento de 25 mandados de busca e apreensão em cidades como São Paulo, Santo André, Barueri, Bertioga, Campos do Jordão e Osasco.

As investigações começaram após a apreensão de máquinas de cartão em casas de jogos clandestinas em Santos, que estavam vinculadas a postos de combustíveis. A análise financeira mostrou que os valores eram repassados para uma fintech, utilizada para ocultar a origem ilícita dos recursos.

O MPSP identificou uma complexa rede de indivíduos e empresas envolvidos na movimentação irregular de dinheiro, com conexões no setor hoteleiro e em postos que mantinham contabilidade paralela. Uma das fintechs associadas é o BK Bank, já ligado aos investigados na Operação Carbono Oculto, que revelou fraudes no setor de combustíveis com participação de integrantes da facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

O esquema funcionava em várias etapas da cadeia de combustíveis — da importação à distribuição — e envolvia adulteração com metanol. Além dos postos, os alvos incluíam imóveis, motéis e franquias, usados para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio. Os recursos circulavam em espécie ou via maquininhas conectadas a fintechs, sendo reinvestidos em negócios e imóveis por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCP).

Segundo a Receita Federal, cerca de 400 postos estavam sob o comando formal de um único prestador de serviços, sendo 200 ligados diretamente ao grupo. Pelo menos 267 postos ainda ativos movimentaram mais de R$ 4,5 bilhões entre 2020 e 2024, mas recolheram apenas R$ 4,5 milhões em tributos federais — ínfimos 0,1% do total.

A rede criminosa também explorava outros setores. Lojas de franquias ligadas ao grupo movimentaram cerca de R$ 1 bilhão no mesmo período, mas registraram apenas R$ 550 milhões em notas fiscais e pagaram R$ 25 milhões em tributos — 2,5% do faturamento. Já mais de 60 motéis vinculados à organização movimentaram R$ 450 milhões, distribuindo R$ 45 milhões em lucros; em um dos casos, um motel distribuiu 64% da receita bruta declarada.

As investigações ainda identificaram transações imobiliárias de alto valor, como a compra de um imóvel de R$ 1,8 milhão em 2021 e outro de R$ 5 milhões em 2023. Também foi constatado o uso estratégico das SCPs em empreendimentos residenciais em Santos, movimentando R$ 260 milhões entre 2020 e 2024.

Essa operação é um desdobramento da Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto, considerada uma das maiores ofensivas contra o crime organizado no país. Na ocasião, descobriu-se um esquema bilionário de importação irregular de metanol pelo Porto de Paranaguá (PR), desviado para postos de combustíveis em vez de empresas químicas. A Receita estima que cerca de mil postos ligados ao grupo movimentaram R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

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