Segundo relatos, homens armados invadiram o assentamento, resultando na morte de dois assentados e deixando pelo menos seis outros feridos
William Oliveira Publicado em 12/01/2025, às 10h29
No último sábado (11), o Ministério da Justiça e Segurança Pública determinou à Polícia Federal (PF) a abertura de um inquérito para investigar o ataque ocorrido no assentamento Olga Benário, vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O episódio violento aconteceu em Tremembé, a cerca de 140 quilômetros de São Paulo, na noite de sexta-feira (10).
De acordo com relatos do MST, homens armados invadiram o assentamento, resultando na morte de dois assentados e deixando pelo menos seis outros feridos, alguns em estado crítico. As vítimas fatais foram identificadas como Valdir do Nascimento, conhecido como Valdirzão, de 52 anos, e Gleison Barbosa de Carvalho, de 28 anos. Valdirzão era uma das lideranças locais.
A PF já mobilizou uma equipe composta por agentes, peritos e papiloscopistas para a cena do crime. Em comunicado enviado a Andrei Passos, diretor-geral da PF, o ministro substituto Manoel Carlos de Almeida Neto informou que a invasão ocorreu por volta das 23 horas, quando criminosos armados dispararam contra as famílias no assentamento, que é legalmente reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
Segundo o MST, os atacantes ainda não foram identificados e chegaram ao local usando vários veículos e motocicletas. Durante o ataque, quando muitos assentados estavam dormindo – incluindo crianças e idosos – dois deles foram atingidos por disparos fatais. Embora a ocorrência tenha sido amplamente divulgada nas redes sociais, uma terceira morte mencionada pelos integrantes do movimento não foi confirmada pelas autoridades competentes.
Segundo a Secretaria Estadual de Saúde, pelo menos seis feridos estão sendo atendidos em hospitais da região, incluindo o Hospital Regional do Vale do Paraíba. Contudo, devido à natureza policial do caso e à falta de autorização das vítimas ou familiares, não há detalhes disponíveis sobre o estado de saúde dos internados.
Em resposta à gravidade dos acontecimentos, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania anunciou que prestará assistência e proteção às lideranças e demais moradores do assentamento Olga Benário. O ministério está coletando informações sobre o incidente por meio do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos.
O ministro Paulo Teixeira, responsável pelo Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, expressou repúdio ao ato criminoso e solidariedade às famílias das vítimas. Além disso, conselhos de direitos humanos manifestaram indignação diante da violência enfrentada pelas famílias assentadas e reafirmaram seu compromisso de acompanhar as investigações até que a verdade seja esclarecida.
Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos indicam que, entre 2020 e 2024, foram registradas mais de 2.300 denúncias relacionadas a conflitos agrários e violações dos direitos humanos. Os representantes dos conselhos pediram ação efetiva para pôr fim à escalada de violência que afeta tanto áreas urbanas quanto rurais.
Reações também vieram de parlamentares, incluindo o deputado estadual Simão Pedro (PT-SP), que associou o ataque a organizações criminosas interessadas na apropriação de terras destinadas à reforma agrária.
Suspeito preso
Ainda no sábado, Antônio Martins dos Santos Filho, conhecido como "Nero do Piseiro", foi preso pela Polícia Civil de São Paulo como articulador do ataque. Durante o depoimento, Nero admitiu sua participação e forneceu informações que ajudaram a identificar outros envolvidos.
Segundo o delegado Marcos Ricardo Parra confirmou que ele está colaborando com a investigação e que o ataque foi motivado por uma disputa interna sobre a venda de um lote.