Relatos de moradores revelam um clima de terror, com ameaças de multas e coação para aceitar mudanças para habitação social
William Oliveira Publicado em 07/07/2025, às 08h00
No centro de São Paulo, moradores da Favela do Moinho estão sendo alvo de cobranças ilegais e intimidações por parte de proprietários locais, incluindo uma figura proeminente do Primeiro Comando da Capital (PCC). As extorsões chegam a até R$ 100 mil para quem aceita se mudar para apartamentos da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU).
Segundo relatos, traficantes e supostos donos de imóveis vêm pressionando inquilinos — que atualmente pagam aluguéis de até R$ 700 — com o argumento de que a mudança para a habitação social descaracterizaria a comunidade. Como forma de coação, ameaçam impor multas ou exigir que, no futuro, os moradores vendam os apartamentos e repassem parte do lucro aos criminosos.
Entre os envolvidos está Leonardo Moja, o "Leo do Moinho", apontado como liderança do PCC na região e preso em 2024. Ele possui um histórico criminal que inclui homicídio e tráfico de drogas, e segundo o Ministério Público, comandava as operações do tráfico a partir da favela, com o apoio até de guardas civis metropolitanos.
Vítimas das ameaças incluem ao menos quatro famílias que optaram pelo anonimato por temer represálias. Um ex-morador relatou: "Já saí de lá e não quero problemas. Estamos todos com medo de falar." Outro depoimento, de uma mulher que procurou a Polícia Civil, revela o clima de terror: “Estamos sendo ameaçados com frases como ‘eu vou atrás de você’. Muitas mães estão apavoradas; é uma luta constante para dormir à noite.”
A denúncia resultou na abertura de inquérito pela Polícia Civil e foi encaminhada ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, que já apura seis denúncias envolvendo membros da facção.
Moradores afirmam que emissários dos traficantes estão fotografando as casas deixadas por inquilinos que fogem das ameaças. O medo é tanto que muitos preferem recusar a ajuda gratuita do governo para a mudança, optando por custear por conta própria. Segundo dados oficiais, das 405 famílias que deixaram a área, 222 rejeitaram a proposta da CDHU.
Em meio à crise, o governo federal anunciou um programa conjunto com o estado para oferecer moradias gratuitas aos moradores da Favela do Moinho, prometendo um investimento de R$ 220 milhões.