Segurança digital

O lado obscuro do Roblox: o que os usuários e os pais precisam saber

Plataforma popular entre crianças esconde riscos como exposição a conteúdos inadequados, aliciamento e falhas de proteção; especialistas explicam como identificar e evitar perigos

Plataforma oferece experiências interativas e jogos desenvolvidos pela própria comunidade - Imagem: Reprodução

Lívia Gennari Publicado em 04/02/2026, às 14h00

Lançado em 2006, o Roblox é uma plataforma que reúne milhares de experiências criadas pelos próprios usuários, e não um jogo único, como muitos pais imaginam. Embora tenha começado de forma discreta, sua popularidade disparou em 2020, quando a pandemia levou crianças e adolescentes a buscar novas formas de diversão e interação online.

Por trás do visual colorido e aparentemente inocente, existe um ecossistema vasto e pouco padronizado, onde qualquer pessoa pode criar conteúdos, inclusive menores de idade, que hoje representam parte expressiva da comunidade.

Segundo uma pesquisa da empresa Takeaway Reality, divulgada no último ano, quase quatro em cada dez usuários têm menos de 13 anos. Somados, os jogadores que acessam a plataforma todos os dias ultrapassam os 90 milhões, número que coloca o Roblox entre os ambientes digitais mais movimentados do planeta.

O acesso gratuito e a liberdade criativa ajudaram a consolidar o sucesso. A plataforma reúne mais de 6 milhões de experiências, algumas simples e inocentes, outras complexas e pouco controladas. Em comum, todas compartilham um funcionamento que mistura chat, criação de mundos, comércio virtual e interação em tempo real entre desconhecidos.

É justamente nessa combinação que especialistas identificam os maiores perigos.

Casos reais acendem alerta: “parecia só mais um joguinho”

Um menino de 10 anos, por exemplo, foi aliciado por um adulto que utilizava uma conta falsa para se passar por outra criança. Em outro caso, uma menina de nove anos desenvolveu crises de ansiedade depois de visualizar conteúdos de natureza sexual dentro do jogo. Há ainda queixas de vício, comportamento agressivo e mudanças bruscas de humor ligadas ao uso prolongado.

Parte do problema, apontam especialistas, está na ausência de classificação etária restritiva, na escassez de mecanismos preventivos e na velocidade com que menores entram em contato com estranhos.

Quando a diversão vira risco emocional: os primeiros sinais

A psicóloga infantojuvenil, Marcela Marys, explica que a plataforma coloca crianças diante de interações e conteúdos para os quais não estão emocionalmente preparadas.

“O Roblox pode expor crianças e adolescentes a conteúdos inadequados, interações com desconhecidos e situações que exigem uma maturidade emocional que ainda está em construção. Isso pode favorecer o aumento de ansiedade, irritabilidade, prejuízos na autorregulação emocional, e pode impactar a forma como a criança entende o próprio corpo, as relações e até os limites”, explica a psicóloga.

Segundo a psicóloga, tais experiências, quando repetidas ou não filtradas, podem gerar tanto impactos imediatos quanto consequências de longo prazo.

“Os primeiros sinais quase sempre aparecem no comportamento: mudança de humor, irritabilidade, falas inadequadas para a idade, isolamento e resistência em conversar sobre o que acontece no jogo.”

O aliciamento também pode passar despercebido pelos adultos. Crianças abordadas por desconhecidos costumam apresentar sinais semelhantes — além de esconder conversas, apagar mensagens e mostrar desconforto ao serem questionadas sobre o uso do computador.

Diante disso, a psicóloga reforça que o diálogo contínuo é a principal ferramenta de proteção.

“Não é uma conversa única. Os pais precisam falar de forma simples e constante sobre riscos. Quando o adulto reage com calma, a criança aprende que pedir ajuda é seguro."

As brechas legais e as responsabilidades da plataforma

Do ponto de vista jurídico, a preocupação também é crescente. O advogado Bruno Yudi Soares Koga, doutor em Direito Constitucional e especialista em Direito Digital, explica que plataformas frequentadas por menores carregam uma série de obrigações impostas pela legislação brasileira.

"A primeira responsabilidade de um aplicativo como o Roblox é atender ao melhor interesse do menor, ou seja, o interesse da criança ou adolescente deve estar acima do lucro da plataforma", explica.

Entre outras exigências, as plataformas devem impedir a circulação de conteúdos sexuais, coibir comportamentos que coloquem em risco a integridade física ou psicológica de menores e estabelecer mecanismos eficazes de moderação.

Quando essas medidas falham, a empresa pode ser responsabilizada.

“Se houver omissão — seja na prevenção, na comunicação às autoridades ou na preservação de dados — a plataforma pode responder nas esferas civil, administrativa e até criminal, nos termos do ECA".

Criação de jogos por menores levanta debates sobre trabalho infantil

Falhas nessas circunstâncias vêm gerando repercussões legais. Em agosto de 2024, o Roblox foi processado nos Estados Unidos sob a alegação de não possuir medidas de segurança eficazes para proteger usuários de predadores sexuais. No Brasil, em outubro do mesmo ano, a plataforma passou a ser alvo de uma investigação do Ministério Público do Trabalho em São Paulo por suspeita de trabalho infantil em seu ecossistema.

Uma das características mais chamativas do Roblox é a possibilidade de qualquer usuário, inclusive crianças, desenvolver seus próprios jogos e até lucrar com eles. Para Koga, isso não é necessariamente crime, desde que ocorra de forma lúdica e sem prejuízo ao desenvolvimento da criança.

"A criação de jogos pelos usuários, quando em caráter lúdico, não deve ser comparada ao trabalho infantil. Porém, caso haja exploração do menor, ainda que por coação, cobranças de qualquer espécie ou outro meio que prejudique seu desenvolvimento psicológico, a prática pode, sim, caracterizar trabalho infantil."

Entre criatividade e vulnerabilidade: um equilíbrio ainda distante

O Roblox se consolidou como um espaço vibrante, de imaginação fértil e participação global. Mas, junto da liberdade criativa, surgem desafios complexos, que vão da saúde mental à responsabilização criminal, passando por lacunas regulatórias e dificuldades de fiscalização.

Enquanto a plataforma afirma investir em proteção, como canais internos de denúncia e suspensão de contas, especialistas são unânimes em afirmar que essas medidas ainda não bastam para garantir segurança plena.

Até lá, o monitoramento doméstico e a conversa constante permanecem como as barreiras mais eficazes para proteger crianças em um universo que, embora pareça simples e divertido, está longe de ser inofensivo.

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