O clima de incerteza e medo predomina entre os venezuelanos, com receios sobre represálias internas e a reação das Forças Armadas
Redação Publicado em 04/01/2026, às 11h13
A madrugada deste sábado (3) foi marcada por uma ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela, autorizada pelo presidente norte-americano Donald Trump. A operação, descrita por Washington como de grande escala, resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, após ataques a pontos estratégicos de Caracas.
O conflito repercutiu fortemente entre a comunidade venezuelana que vive em São Paulo, que acompanha os acontecimentos à distância, troca informações com familiares no país e teme as consequências políticas, sociais e humanitárias do episódio.
“Quando chegaram as primeiras mensagens da minha família, achei que não fosse real. Pensei até que fosse inteligência artificial”, relatou.
As confirmações vieram por meio de parentes que vivem em Caracas, alguns deles próximos à região de La Carlota, onde estão localizados um quartel e uma base aérea — áreas que estariam entre os alvos da ofensiva. Segundo Victor, embora houvesse expectativa de algum tipo de tensão militar, a dimensão do ataque surpreendeu.
Uma familiar contou que começou a ouvir explosões ainda de madrugada. Inicialmente, tentou manter a rotina e chegou a se preparar para ir ao trabalho, mas percebeu rapidamente que a situação era mais grave do que episódios anteriores de violência.
Ao longo da manhã, Victor recebeu novos relatos de amigos e familiares sobre a situação na capital venezuelana. Para ele, o ambiente é de incerteza quanto aos próximos passos do país.
“De um lado, há pessoas comemorando em alguns pontos da cidade. Para mim, isso representa apenas uma pequena porta para a esperança de mudança. Ao mesmo tempo, existe o medo do que pode vir depois”, afirmou.
Segundo ele, circula entre a população o receio de represálias internas. “Há o sentimento de que isso pode marcar o início de uma caça às bruxas”, disse.
A professora Denilde Holzhacker, especialista em Ciências Políticas e Relações Governamentais, avalia que o cenário é delicado e depende, sobretudo, da reação das Forças Armadas venezuelanas e da forma como os Estados Unidos conduzirão a intervenção.
“Tudo depende de como os militares vão reagir e se haverá enfrentamento direto, além de como esse processo será articulado com os grupos no poder e com a oposição”, explica.
Segundo a especialista, a escalada da tensão pode abrir espaço para disputas internas. “Haverá competição entre grupos pelo controle da transição e pela definição da nova lógica de poder. A pressão internacional e o monitoramento externo podem ajudar a reduzir a instabilidade, mas o risco permanece elevado”, afirma.
O ataque dos Estados Unidos à Venezuela também provocou manifestações de autoridades em São Paulo. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou, em redes sociais, que nenhum povo deve viver sob repressão e destacou que a capital paulista acolhe venezuelanos que buscaram refúgio ao fugir de um regime autoritário.
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) comentou a operação em tom crítico ao governo federal. Em publicação, afirmou que o mundo amanheceu com a imagem simbólica de um “ditador cruel e corrupto capturado”, em referência a Nicolás Maduro.
O governador em exercício, Felício Ramuth (PSD), também se manifestou em apoio à ação americana, dizendo que a prisão de Maduro pode representar o início de um período de liberdade para o povo venezuelano.
Já o deputado federal Guilherme Derrite (PP) associou o episódio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “O grande amigo do Lula foi capturado hoje, depois de perseguir, calar e expulsar seu próprio povo por décadas”, escreveu.