Conversas obtidas pela investigação mostram dinâmica de controle financeiro e emocional antes da morte da policial militar em São Paulo.
Ana Beatriz Publicado em 23/03/2026, às 14h34
A investigação sobre a morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, ganhou novos desdobramentos com a divulgação de mensagens trocadas entre ela e o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso e réu por feminicídio. Os diálogos indicam que o oficial utilizava a condição de provedor financeiro para exercer controle sobre a relação e chegou a afirmar que não manteria apoio financeiro em caso de separação.
Segundo o inquérito policial, as conversas revelam uma dinâmica de relacionamento marcada por pressão, cobranças e imposição de papéis. Em uma das mensagens, o coronel afirma que o casamento deveria funcionar como uma “via de mão dupla”, alegando que ele contribuía com dinheiro e, por isso, a esposa deveria retribuir com atenção, afeto e relações íntimas.
A policial, por sua vez, rejeitou esse tipo de imposição e afirmou que não aceitaria “trocar sexo por moradia”, indicando a intenção de romper o relacionamento.
As mensagens também mostram que o oficial reclamava da rotina da esposa e da dedicação dela à filha, além de reforçar uma visão de hierarquia dentro do casamento. Em outros trechos, ele se descreve como “provedor” e defende um modelo de relação baseado na submissão feminina, o que, segundo o Ministério Público de São Paulo, evidencia um comportamento “machista, controlador e possessivo”.
Relação marcada por controle e conflito
De acordo com a denúncia do Ministério Público, o relacionamento entre o casal evoluiu para um cenário de tensão constante, com episódios de violência psicológica, controle financeiro e imposição de comportamentos. As investigações apontam que Gisele já manifestava o desejo de separação nos dias que antecederam sua morte.
A negativa do coronel em aceitar o fim do relacionamento e a perda do controle sobre a esposa são apontadas como possíveis motivações para o crime, segundo a acusação.
O Ministério Público sustenta que as mensagens encontradas no celular do investigado não são isoladas, mas fazem parte de um padrão de comportamento que inclui manipulação, autoritarismo e sentimento de posse sobre a vítima.
O crime e a mudança de versão
Gisele Alves Santana foi encontrada gravemente ferida com um tiro na cabeça no apartamento onde vivia com o marido, no bairro do Brás, em São Paulo, em 18 de fevereiro. Ela chegou a ser socorrida, mas morreu horas depois no hospital.
Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita após inconsistências na cena e nos depoimentos. Com o avanço das perícias, a Polícia Civil concluiu que a dinâmica do disparo não era compatível com a hipótese inicial.
Com base nas evidências, a Justiça decretou a prisão do tenente-coronel, que passou a responder por feminicídio e fraude processual.
Defesa nega crime
A defesa do oficial contesta as acusações e sustenta que Gisele teria tirado a própria vida. O coronel nega qualquer envolvimento no caso e afirma que está sendo alvo de interpretações equivocadas sobre o relacionamento.
Ele também alega que contribuía financeiramente com a casa e com a criação da filha da vítima, o que, segundo sua versão, fazia parte da dinâmica familiar.
Caso levanta debate sobre violência de gênero
O caso reacendeu discussões sobre violência doméstica, especialmente em relações marcadas por dependência financeira e controle psicológico. Especialistas apontam que esse tipo de dinâmica pode evoluir para situações mais graves, como agressões físicas e feminicídio.
Para investigadores, os elementos reunidos até agora indicam que o crime pode ter sido motivado pela incapacidade do suspeito de aceitar o fim do relacionamento e a autonomia da vítima.
O processo segue em andamento e será julgado pelo Tribunal do Júri.