Proposta previa vídeos coordenados para questionar a liquidação do banco e foi apresentada como estratégia de “gerenciamento de crise”.
Ana Beatriz Publicado em 06/01/2026, às 21h01
Influenciadores digitais afirmam ter recebido propostas para publicar conteúdos críticos à decisão do Banco Central que determinou a liquidação do Banco Master, em uma ação descrita como parte de um suposto plano de gerenciamento de crise. Batizado internamente de “Projeto DV”, o serviço previa remuneração milionária para quem ajudasse a difundir a narrativa de que a medida teria sido precipitada.
Os relatos foram feitos pelos influenciadores Rony Gabriel, vereador do PL em Erechim (RS), e Juliana Moreira Leite, conhecida nas redes como @jliemilk. Ambos disseram ter sido procurados por representantes de agências especializadas em influenciadores de direita para repercutir uma reportagem publicada em 19 de dezembro pelo portal Metrópoles, que citava um despacho do Tribunal de Contas da União (TCU) questionando a rapidez da liquidação do banco.
No caso de Rony Gabriel, que soma 1,4 milhão de seguidores, o contato foi feito por um representante da UNLTD Brasil, que descreveu a ação como uma disputa política “contra o sistema”. Já Juliana Moreira Leite, que também tem cerca de 1,4 milhão de seguidores, foi abordada por um integrante do Portal Group Br. Nenhum dos dois aceitou participar da iniciativa.
Segundo Gabriel, a proposta incluía a assinatura de um contrato de confidencialidade, com previsão de multa de R$ 800 mil em caso de descumprimento. O influenciador encaminhou à imprensa documentos, mensagens e gravações que, segundo ele, comprovam a abordagem. O material faz referência direta ao “Projeto DV”, associação às iniciais de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
Conteúdos coordenados
Além da abordagem direta, os influenciadores receberam exemplos de postagens que já estariam circulando nas redes sociais, todas com o mesmo argumento: destacar a atuação do TCU, sugerir precipitação do Banco Central e insinuar que a liquidação do Master teria interesses ocultos por trás.
Entre os nomes citados estava o influenciador Paulo Cardoso (@cardosomundo), com mais de 4,3 milhões de seguidores, que publicou um vídeo levantando suspeitas sobre a rapidez da decisão do BC. Cardoso negou ter firmado contrato ou recebido pagamento, afirmando que apenas comenta notícias de interesse público.
Outros comunicadores também foram mencionados como exemplos de engajamento espontâneo, embora parte deles não tenha confirmado vínculos formais com qualquer campanha organizada.
Reações e apurações
Procuradas, as agências envolvidas negaram contratos diretos com os influenciadores citados. O Banco Master foi questionado sobre as abordagens, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação.
O episódio reacende o debate sobre uso de influenciadores em campanhas de pressão política e econômica, especialmente em momentos de crise institucional, e levanta questionamentos sobre transparência, publicidade velada e manipulação de narrativas nas redes sociais.