O morador plantou milhares de árvores às margens do Córrego Tiquatira, inspirando cuidado ambiental na cidade
Gabriela Nogueira Publicado em 21/10/2025, às 19h44
Em 2023, a Fundação SOS Mata Atlântica divulgou que a iniciativa de “Seu Hélio” inspirou a criação de cerca de 300 grupos de plantio de árvores em diferentes regiões do Brasil. A história desse morador da Penha, na Zona Leste de São Paulo, mostra como a determinação de uma única pessoa pode transformar completamente um espaço urbano.
O que antes era uma faixa cinzenta às margens do Córrego Tiquatira tornou-se um vibrante corredor verde. Em duas décadas, a área passou por uma metamorfose impressionante, substituindo o mato ralo e o lixo por uma floresta urbana exuberante. O Parque Linear Tiquatira, com mais de três quilômetros de extensão, é hoje uma das maiores áreas verdes contínuas da capital paulista.
Essa transformação, porém, não nasceu de projetos públicos ou grandes investimentos, e sim da vontade de um morador. Hélio da Silva, aposentado de 74 anos e morador da região há mais de seis décadas, lembra que decidiu agir em 2003, após ver o córrego se degradar com o tempo. “Eu vi essa degradação se intensificando. Quarenta anos atrás, o córrego era limpo e cheio de vida; havia rãs e pequenos animais, mas tudo desapareceu após a canalização”, recorda. Naquele novembro, ele avisou à família que transformaria o cenário local em dez anos. “Eles ficaram preocupados com a segurança, pois a área era perigosa. Foi então que decidi seguir em frente”, conta.
A partir daí, Hélio começou a plantar mudas nos fins de semana, armado apenas com adubo, enxada e perseverança. Anotava tudo em um fichário, onde mantém até hoje registros detalhados de mais de 42 mil árvores plantadas ao longo do córrego. Nos primeiros anos, enfrentou frustrações: suas primeiras 200 mudas foram destruídas, e novas tentativas falharam. Mesmo assim, ele aumentou a meta para 5 mil. O esforço deu resultado. Atualmente, as margens do Tiquatira abrigam 164 espécies da Mata Atlântica, entre elas ipês, jatobás e pau-brasil, sendo cerca de 3 mil árvores frutíferas. O local também virou ponto de observação de aves, com 69 espécies registradas.
A diferença no ambiente é notável. O parque, antes uma área de medo e abandono, agora é frequentado por famílias, escolas e grupos de lazer. A temperatura ali pode ser até cinco graus mais baixa do que nas ruas vizinhas, e as árvores ajudam a conter enchentes, absorvendo parte da água das chuvas fortes. Durante uma visita em um dia quente, a reportagem percebeu como o ar dentro da mata se mantém fresco e úmido, em contraste com o calor intenso do asfalto.
A transformação do Tiquatira também impactou a comunidade. “É importante que outras pessoas se unam nesse esforço. Ele não deve carregar essa responsabilidade sozinho; seu trabalho beneficia todos nós”, afirma Jaciana Ambrósio, moradora de 41 anos.
Ainda ativo, Hélio participa de palestras em escolas e eventos ambientais, compartilhando sua experiência e incentivando novas gerações a cuidar da natureza. Aos 74 anos, mantém o mesmo entusiasmo de quando começou e chega a plantar até 60 mudas por dia durante os períodos de chuva. As árvores são compradas em viveiros do interior paulista, onde os preços são mais acessíveis.
Para Hélio, o plantio não é apenas um passatempo, mas uma missão de vida. Sua nova meta é alcançar a marca de 50 mil árvores plantadas no Tiquatira — um legado verde que já mudou o cenário da Penha e inspira o país inteiro.