Lourivaldo Vieira dos Santos, de 50 anos, perdeu um rim após ser atingido por um tiro disparado por um policial militar durante uma operação no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, na madrugada do último sábado (24)
William Oliveira Publicado em 28/01/2026, às 07h51 - Atualizado às 08h11
Na manhã do último sábado (24), um episódio grave envolvendo a Polícia Militar foi registrado na rua Póvoa de Varzim, no Capão Redondo, zona sul de São Paulo. O faxineiro Lourivaldo Vieira dos Santos, de 50 anos, foi atingido por um disparo efetuado pelo soldado da PM Luiz Henrique Braz dos Santos, de 26 anos.
O tiro atingiu Lourivaldo pelas costas e causou graves lesões no rim esquerdo, o que levou à realização de uma nefrectomia total. A bala, que quase perfurou o intestino da vítima, foi retirada durante uma cirurgia no Hospital do Campo Limpo, onde ele permanece internado em estado estável. Inicialmente, o paciente precisou de ventilação mecânica após o procedimento cirúrgico.
O policial militar foi detido em flagrante e encaminhado ainda no sábado ao Presídio Romão Gomes. No entanto, no domingo (25), após passar por audiência de custódia, ele foi liberado e responderá ao processo em liberdade por tentativa de homicídio.
Em depoimento, o soldado Braz afirmou que pretendia disparar contra um motociclista que estaria sem capacete e sem placa, e que teria ameaçado sacar uma arma de fogo. A ocorrência se deu durante uma operação policial voltada à repressão de bailes funk na região.
O disparo aconteceu por volta das 4h20 e acabou atingindo Lourivaldo, que se encontrava do outro lado da rua no momento da ação. Testemunhas confirmaram a dinâmica apresentada sobre o disparo acidental.
Um dos pontos mais sensíveis do caso é a ausência de imagens das câmeras corporais. Nenhum dos equipamentos dos policiais envolvidos registrou o momento do disparo. Segundo relatório policial, a câmera utilizada pelo soldado Braz foi acionada apenas após o início do socorro à vítima. Outro policial não utilizava o dispositivo devido a problemas técnicos relacionados ao acionamento automático da câmera.
Um terceiro agente também não registrou imagens, pois se afastou do local para fazer a segurança de motocicletas apreendidas durante a operação.
A Polícia Militar ainda não confirmou se há possibilidade de recuperação de imagens anteriores à ativação da câmera do soldado Braz. Em nota, a Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que o caso é investigado pela Polícia Civil e pela Corregedoria da PM, sem mencionar eventual análise de registros audiovisuais.
Responsável pelo inquérito no 47º Distrito Policial, o delegado Eder Vulczak criticou o fato de a ocorrência não ter sido apresentada imediatamente à Polícia Civil. Segundo ele, a apresentação tardia prejudicou o andamento das investigações, já que o policial foi detido antes mesmo de prestar esclarecimentos formais na delegacia.
O delegado admitiu a possibilidade de legítima defesa, mas classificou o caso, inicialmente, como tentativa de homicídio. Ele ressaltou que esse tipo de apuração cabe à Polícia Civil e alertou que falhas na preservação do local do crime podem ter resultado na perda de provas importantes.
A condução da ocorrência também gerou críticas internas. Em relatório, o tenente Valdir de Souza Junior relatou falhas de comunicação no registro do caso, indicando possíveis problemas administrativos dentro da corporação.