JUSTIÇA

Família processa estudantes e hospital após vídeo sobre jovem transplantada

Gabrielli Farias e Thaís Caldeiras enfrentam ação judicial após vídeo sobre Vitória Chaves, que faleceu em fevereiro deste ano

Jovem enfrentou três transplantes de coração - Imagem: Reprodução / X / @pavarini

William Oliveira Publicado em 06/05/2025, às 08h37

Recentemente, duas estudantes de medicina foram alvo de denúncias após publicarem um vídeo comentando o caso de Vitória Chaves da Silva, uma jovem que enfrentou uma complexa jornada médica com três transplantes de coração. A família de Vitória, que faleceu em fevereiro deste ano, moveu uma ação judicial contra as alunas, além do Instituto do Coração (InCor) e da empresa Inspirali Educação, buscando uma indenização de R$ 607 mil por danos morais.

A situação se agravou quando Gabrielli Farias de Souza e Thaís Caldeiras Soares Foffano divulgaram um vídeo no TikTok onde discutiam o histórico médico da paciente, insinuando ironicamente que ela teria "sete vidas" devido às complicações enfrentadas. A gravação, realizada dentro do hospital InCor, foi considerada pela família como desrespeitosa e maldosa, especialmente diante do contexto trágico da vida de Vitória.

A jovem lutava contra uma cardiopatia congênita desde o nascimento e era conhecida no hospital pelo tratamento intensivo. Segundo a família, o vídeo afirmava, de forma errônea, que a paciente não seguia corretamente o regime de medicação. A defesa contesta, ressaltando que Vitória era extremamente disciplinada com seu tratamento.

O processo destaca a importância do sigilo médico e da dignidade humana, argumentando que as estudantes violaram essas premissas ao expor informações sensíveis sobre a saúde de Vitória. Além disso, a família reclama que o conteúdo prejudicou a imagem da jovem e sua luta pela vida.

Após serem ouvidas pela Polícia Civil no 14º Distrito Policial, as estudantes afirmaram que não tinham a intenção de ofender Vitória e queriam apenas compartilhar informações sobre um caso raro. No entanto, reconheceram a gravidade da repercussão do vídeo.

O delegado responsável esclareceu que a ação pode evoluir para um inquérito por injúria e que o próximo passo é o oferecimento formal de queixa-crime pela família para que o processo avance na Justiça.

Em resposta, as universidades das estudantes e o InCor emitiram notas lamentando o ocorrido e reafirmando o compromisso com a ética profissional. As instituições anunciaram que adotarão medidas para evitar novos casos semelhantes.

O que disseram as alunas?

"Diante da repercussão gerada por um vídeo publicado em ambiente pessoal, nós, estudantes de Medicina mencionadas em recentes reportagens, vimos a público prestar alguns esclarecimentos, com respeito, empatia e responsabilidade.

O conteúdo divulgado teve como única intenção expressar surpresa diante de um caso clínico mencionado no ambiente de estágio.

A situação descrita, por sua raridade, despertou nossa curiosidade acadêmica e levou a uma reflexão espontânea sobre aspectos técnicos que jamais havíamos estudado ou presenciado.

É importante esclarecer que não tivemos contato com a paciente, não acessamos seu prontuário, não citamos seu nome, não capturamos nem divulgamos qualquer imagem, ou seja, não sabíamos sequer quem era. Também não temos como afirmar se as fotos que passaram a circular nas redes sociais são, de fato, da paciente mencionada nas matérias jornalísticas.

Lamentamos profundamente que o vídeo — gravado sem qualquer informação que possibilitasse identificação — tenha sido interpretado de forma diversa da nossa real intenção, vinculando-o a uma determinada pessoa.

Reafirmamos que não houve qualquer deboche ou insensibilidade. Nosso compromisso com a vida, a dignidade humana e os princípios éticos da Medicina permanece inabalável.

Lamentamos também que, por razões alheias à nossa intenção, alguns segmentos tenham divulgado trechos isolados do vídeo, fora de contexto, o que contribuiu para distorções na interpretação do conteúdo.

Manifestamos nossa solidariedade à família da paciente mencionada nas reportagens, a quem respeitamos sinceramente, e reiteramos que jamais tivemos a intenção de ofender, expor ou causar sofrimento. Estamos tomando as providências cabíveis para esclarecer os fatos e preservar nossa integridade pessoal, acadêmica e emocional.

Agradecemos às pessoas que têm nos escutado com respeito e compreensão neste momento difícil, que tem sido também de profundo aprendizado".

O que diz a FMUSP?

"A FMUSP esclarece que as alunas envolvidas na ocorrência são graduandas de outras instituições, que estavam no hospital em função de um curso de extensão de curta duração (um mês). Atualmente, não possuem qualquer vínculo acadêmico com a FMUSP ou com o InCor.

Assim que foi tomado conhecimento do fato, as universidades de origem das estudantes foram notificadas para que possam tomar as providências cabíveis.

Internamente, a FMUSP está tomando medidas adicionais para reforçar junto aos participantes de cursos de extensão as orientações formais sobre conduta ética e uso responsável das redes sociais, além da assinatura de um termo de compromisso com os princípios de respeito aos pacientes e aos valores que regem a atuação da instituição.

A FMUSP repudia com veemência qualquer forma de desrespeito a pacientes e reafirma o compromisso inegociável com a ética, a dignidade humana e os valores que norteiam a boa prática médica.

A instituição reforça ainda a missão de formar profissionais comprometidos com a excelência e com o cuidado humano, valores que são inegociáveis em nossa Instituição."

justiça INDENIZAÇÃO MEDICINA VÍDEO estudantes PROCESSO TRANSPLANTES TIKTOK SIGILO INCOR Polêmica cardiopatia ética Vitória Chaves

Leia também