DESCASO

Família espera 10 meses para enterrar zelador queimado em incêndio em SP

Orides do Carmo Brito, zelador de 60 anos, morreu em um incêndio na Zona Sul de SP, em agosto de 2024, mas só teve o corpo liberado após o resultado de um exame de DNA feito pela família

SSP explica que a identificação de corpos carbonizados é complexa e demanda tempo - Imagem: Reprodução / TV Globo

William Oliveira Publicado em 20/06/2025, às 12h33

Em um caso que escancara os desafios enfrentados por famílias em situações de vulnerabilidade, o corpo de Orides do Carmo Brito, zelador de 60 anos que faleceu em agosto de 2024, foi liberado após 10 meses de espera pelo Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo. O sepultamento foi realizado na última segunda-feira (16).

Orides perdeu a vida em um incêndio que atingiu a residência onde trabalhava, na Avenida Giovanni Gronchi, zona sul da capital. O fogo causou queimaduras em 80% de seu corpo, impossibilitando o reconhecimento visual imediato da vítima.

A família apresentou documentos que buscavam comprovar a identidade do zelador — entre eles, registros hospitalares que indicavam a presença de um pino metálico em uma das pernas. No entanto, tais informações foram rejeitadas pelo IML, que solicitou a realização de um exame de DNA como forma definitiva de identificação.

Franciane de Oliveira Brito, filha da vítima, relatou o sofrimento causado pela longa espera: "Meu pai era uma pessoa muito boa, de um coração enorme, amoroso com todo mundo. Tudo que ele podia fazer para ajudar, estava disposto a fazer. Mandaram a gente ir atrás da documentação dos pinos que ele usava na perna, mas chegávamos no hospital e não liberavam os documentos. Pegamos a documentação, levamos ao IML e eles alegaram que não tinha batido com o corpo."

Embora o prazo estimado para a análise genética variasse entre um e um ano e meio, o resultado foi concluído em cerca de 10 meses — tempo que, mesmo abaixo da média prevista, ainda impôs à família um período doloroso de incertezas.

Quando finalmente obtiveram a autorização para o sepultamento, surgiu um novo obstáculo: a falta de recursos financeiros. A família tentou recorrer ao serviço de enterro social oferecido pela Prefeitura de São Paulo, mas foi informada de que Orides não tinha direito ao benefício por não estar inscrito no programa Bolsa Família.

"A assistente social disse que ele não tinha direito porque não tinha Bolsa Família", contou Romilda de Oliveira Brito, viúva do zelador.

O sepultamento só foi possível graças à solidariedade da comunidade local, que, por meio de doações, ajudou a custear as despesas. A taxa de R$ 585, exigida mesmo em casos de vulnerabilidade, foi coberta com a ajuda de vizinhos e amigos.

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) explicou que a identificação de corpos carbonizados exige mais tempo devido à complexidade do processo. A pasta destacou que cada caso é analisado de forma individual, e não há um prazo padrão para a conclusão dos laudos. As circunstâncias do incêndio seguem sob investigação.

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