Após o acidente, caminhoneiros reclamam da demora no socorro e da ausência de infraestrutura adequada na rodovia
Marina Milani Publicado em 14/11/2025, às 08h26
O episódio da carreta que ficou atravessada no Rodoanel na quarta-feira (12), interrompendo o trânsito por cinco horas após a suspeita de um artefato explosivo, reacendeu reclamações antigas sobre a precariedade do atendimento mecânico e a falta de fiscalização na rodovia.
Em dois dias de apuração, a equipe da TV Globo percorreu trechos do anel viário e encontrou caminhoneiros à própria sorte. Eles relatam longas esperas, dificuldade de contato com a concessionária e ausência de postos de apoio. O caminhoneiro Ivanir Landro saiu de Santa Catarina rumo ao Rio Grande do Norte, mas teve a rota interrompida após um problema mecânico próximo a Embu das Artes.
“Fiquei duas horas no telefone chamando no 0800 e ninguém aparece. Não tem mecânico, não tem nada”, resumiu.
Para outros motoristas, a precariedade vai além da assistência técnica. Mauro Reis, que quebrou o caminhão às 2h, passou o dia aguardando solução. Quando a equipe mecânica enfim chegou, precisou ir até Campinas buscar uma peça.
“A concessionária fez o que podia, mas pedi que voltassem de novo para remover o caminhão. Aqui não tem como mexer”, contou. Ele afirma que a rodovia é “deserta demais” e carece de postos e infraestrutura básica.
A demora não se restringe ao socorro mecânico. Na mesma manhã, enquanto agentes atendiam o motorista da carreta atravessada, outros caminhoneiros reclamavam do tempo de resposta da Polícia Rodoviária. Em vídeo, um deles lamenta: “Já faz uma hora que chamaram e nada”.
A falta de fiscalização também ficou evidente. Em cinco horas de monitoramento no trecho sul, motoristas foram flagrados usando o acostamento irregularmente. Na alça de acesso da Anchieta ao Rodoanel, veículos entram em alta velocidade sem redução. No domingo (9), um carro despencou de um viaduto nesse ponto, matando o motorista e três passageiras.
O Rodoanel, dividido em quatro trechos, tem administração compartilhada. O Norte está em obras. O trecho Oeste é operado pela CCR, enquanto Sul e Leste, 105 km, ficam sob responsabilidade da SPMAR.
A SPMAR afirma manter uma base da Polícia Militar Rodoviária, 43 viaturas, quatro pontos de atendimento, 110 câmeras e 11 veículos operacionais. A CCR diz contar com dois postos fixos da PM e 41 câmeras.
Sobre a demora no caso da carreta atravessada, a Secretaria da Segurança Pública declarou que a Polícia Rodoviária atendeu a ocorrência após ser acionada pela concessionária. Já a SPMAR afirma que enviou um veículo de inspeção oito minutos após identificar o problema por câmera e que presta toda a assistência prevista.
As obras do Rodoanel, iniciadas em 1998, foram concebidas para desafogar o trânsito de caminhões na capital. A rodovia cruza áreas de proteção ambiental, o que levou à construção de poucas entradas e saídas. A medida protege a vegetação, mas produz longos trechos sem serviços e aumenta a sensação de insegurança.
Para Ciro Birdeman, diretor da FGV Cidades e colaborador do projeto original, as regras podem ser atualizadas. Ele defende que novos serviços sejam autorizados sem comprometer o meio ambiente e que a futura concessão inclua exigências de melhor atendimento aos caminhoneiros.
“Eles não podem ficar entregues à própria sorte”, afirmou.