Ministério Público aponta uso de firmas de fachada e fintechs para lavar dinheiro ligado a fraudes no setor e ao crime organizado
Letícia Sales Publicado em 29/05/2026, às 09h50
Uma empresa registrada no endereço de uma igreja no interior de Alagoas passou a integrar o foco das investigações do Ministério Público de São Paulo (MPSP) sobre um esquema bilionário de fraude e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis. Segundo os promotores, a companhia fazia parte de uma rede de empresas de fachada criada para emitir notas fiscais falsas e movimentar recursos ligados ao crime organizado.
De acordo com a investigação, a empresa Atalaia & Atalaia Comércio LTDA funcionaria apenas no papel. O endereço cadastrado, localizado na cidade de Atalaia, a cerca de 45 quilômetros de Maceió, corresponde a uma igreja e não apresenta qualquer sinal de atividade empresarial.
Os investigadores afirmam que a empresa teria sido usada para simular compras de nafta — substância derivada do petróleo — que posteriormente seria desviada para adulteração de combustíveis distribuídos em postos de diferentes regiões do país.
O Ministério Público também aponta que a estrutura utilizada no esquema coincide com a mesma rede de empresas laranjas ligada a Roberto Augusto Leme, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamed Mourad Filho, chamado de “Primo”. Ambos são apontados pelas autoridades como nomes ligados à distribuidora Copape e com suposta conexão com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A Atalaia & Atalaia foi aberta em setembro de 2025 com capital declarado de R$ 100 mil. O proprietário formal da empresa é Nicolas Michel Gomes Vieira Ricardo, identificado pelos promotores como um “laranja recorrente” no esquema. Segundo o Gaeco, ele também aparece vinculado a outras empresas suspeitas de existência fictícia.
As investigações revelam ainda que Michele Gomes Vieira, mãe de Nicolas, mantinha contato direto com operadores da fraude e seria responsável por recrutar pessoas para atuar como sócios de empresas de fachada. Uma empresa registrada em nome dela, a Zurk Indústria e Comércio, chegou a emitir nota fiscal para a compra de 475 mil litros de nafta mesmo estando oficialmente baixada.
No centro do esquema está a petroquímica Petrodansk, localizada no interior de São Paulo. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP), apenas em julho de 2024 a empresa comprou cerca de 33 milhões de litros de nafta e revendeu quase toda a carga.
Os promotores afirmam que, entre dezenas de empresas que adquiriram o produto em 2024, apenas três apresentavam atividade compatível com o material comprado. Para o Ministério Público, isso reforça a suspeita de que boa parte das operações servia apenas para mascarar o desvio da substância.
A nova etapa das investigações foi desencadeada na quinta-feira (28), durante a segunda fase da Operação Carbono Oculto, batizada de “Fluxo Oculto”. O foco agora são fintechs suspeitas de atuar como “bancos paralelos” usados para ocultar patrimônio e movimentar recursos ilícitos.
Segundo a Receita Federal, seis fintechs investigadas movimentaram mais de R$ 26 bilhões em quatro anos. De acordo com os investigadores, as instituições financeiras digitais teriam sido incorporadas ao esquema criminoso após outras empresas de pagamento serem descobertas pelas autoridades.
O Ministério Público segue analisando documentos fiscais, movimentações financeiras e a atuação das empresas suspeitas para identificar todos os envolvidos no esquema.