O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Neto, preso por suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, no Brás, em São Paulo, foi denunciado ao Ministério Público por uma policial militar por assédio sexual e moral
William Oliveira Publicado em 25/03/2026, às 08h22 - Atualizado às 08h55
Uma policial militar denunciou ao Ministério Público o tenente-coronel Geraldo Neto, preso sob suspeita de matar a esposa, a soldado Gisele Alves Santana, com um tiro na cabeça no Brás, região central de São Paulo, por assédio sexual e moral.
Segundo o relato, a policial afirma ter sido alvo de investidas indesejadas por parte do oficial, incluindo tentativa de beijo à força, convites insistentes e abuso de autoridade. Com medo de represálias, ela pediu para não ser identificada.
“Conhecendo o perfil desse homem e tendo sido vítima dele posso afirmar que ele é capaz de tudo”, declarou.
A denunciante afirmou que trabalhou com o tenente-coronel entre julho e novembro do ano passado e que, durante esse período, sofreu assédio frequente. De acordo com o depoimento, o oficial insistia em encontros fora do horário de serviço, fazia convites com conotação íntima e sugeria situações em que ficariam a sós.
Ela também relatou que, ao tentar evitar o contato, pediu mudança de turno. No entanto, segundo a policial, o comportamento persistiu, inclusive com tentativas de oferecer “favores”. Após recusar as investidas, acabou sendo transferida para uma unidade mais distante, o que interpreta como retaliação.
A denúncia foi formalizada após a policial tomar conhecimento da morte de Gisele, caso que levou à prisão preventiva do tenente-coronel. Ele se tornou réu por feminicídio e fraude processual.
De acordo com o Ministério Público, laudos periciais e provas reunidas indicam que o oficial teria atirado contra a esposa e, em seguida, alterado a cena do crime para simular suicídio. Imagens de câmeras corporais mostram o suspeito circulando pelo local e interferindo na preservação da cena, o que levantou suspeitas dos investigadores.
A defesa nega as acusações e sustenta que a morte foi um suicídio. O caso segue em investigação e pode ser levado a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Gisele foi encontrada no dia 18 de fevereiro caída no chão do apartamento onde morava com o marido, no Centro de São Paulo, com um tiro na cabeça. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no hospital.
De acordo com laudo do Instituto de Criminalística, uma pessoa com 1,65 metro de altura — como a vítima — alcançaria no máximo 1,73 metro, mesmo se esticando nas pontas dos pés. A arma, no entanto, estava posicionada a cerca de 1,96 metro de altura. O guarda-roupa onde o armamento ficava apoiado mede 2,04 metros. A constatação contraria a versão apresentada pelo oficial, que alegava que a própria vítima teria retirado a arma antes do disparo.
O tenente-coronel foi preso nesta quarta-feira (18), em São José dos Campos (SP), após a Justiça Militar decretar sua prisão preventiva pelos crimes de feminicídio e fraude processual.
Na reprodução simulada dos fatos, o oficial relatou que, na manhã do crime, comunicou à esposa a intenção de se separar. Segundo ele, houve discussão, e Gisele o empurrou para fora do quarto, trancando a porta. Em seguida, afirmou ter ido tomar banho. Cerca de um minuto depois, disse ter ouvido um barulho alto, que inicialmente interpretou como uma porta batendo. Ao sair parcialmente do banheiro, declarou ter visto a esposa caída no chão da sala, com sangramento na cabeça.
As investigações, no entanto, apontam um histórico de violência psicológica no relacionamento. Mensagens extraídas do celular do oficial revelam que Gisele relatava episódios frequentes de humilhação e desrespeito.
“Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu a policial.
Em outro trecho, ela afirmou: “Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos. Estou deixando bem claro para você que não vou aguentar muito tempo esse comportamento babaca”.
Gisele também reclamou: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”
Já em mensagens atribuídas ao tenente-coronel, há declarações de cunho machista: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”.
Para a Corregedoria, os diálogos evidenciam “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico” e indicam “violência psicológica reiterada, com tentativas de controle e desqualificação da autonomia da vítima”.
A investigação reúne uma série de laudos periciais que reforçam a suspeita de feminicídio. O exame necroscópico apontou marcas de dedos no pescoço da vítima, indicando que ela pode ter sido desacordada antes do disparo. A análise da trajetória do tiro revelou que o disparo foi feito de baixo para cima, com o cano encostado na cabeça.
O exame toxicológico não identificou presença de álcool ou drogas. Já o teste residuográfico não detectou vestígios de pólvora nas mãos da vítima nem nas do oficial. Peritos também consideraram incomum o fato de Gisele ter sido encontrada segurando a arma, o que não costuma ocorrer em casos de suicídio.
Outros elementos levantaram suspeitas, como o intervalo de 29 minutos entre o barulho do disparo ouvido por uma vizinha e o pedido de socorro feito pelo oficial. Ele também afirmou ter tomado banho antes do ocorrido, mas foi encontrado com o corpo seco quando as equipes chegaram ao local.
Exames periciais identificaram ainda vestígios de sangue no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento, revelados com o uso de luminol. Após a perícia, o imóvel foi limpo por policiais militares, o que também passou a ser investigado.
A Polícia Civil indiciou o tenente-coronel por feminicídio e fraude processual, apontando possível alteração da cena do crime. A motivação, segundo os investigadores, estaria relacionada a ciúmes e comportamento possessivo.
O caso deve ser analisado pela Justiça comum, já que crimes dolosos contra a vida não são considerados militares. Se condenado, o oficial poderá ser julgado pelo Tribunal do Júri. O Ministério Público também solicitou a fixação de indenização mínima de R$ 100 mil aos familiares da vítima.
As investigações seguem em andamento.