Contrariando a versão de seus advogados, Bolsonaro afirma que pensou em reverter o resultado da eleição presidencial
Jair Viana Publicado em 29/03/2025, às 18h31
Em entrevista o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-DF) admitiu ter discutido com comandantes das Forças Armadas, em dezembro de 2022, a possibilidade de impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP), eleito em outubro daquele ano. A afirmação contradiz defesas apresentadas por seus advogados à Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que negaram qualquer articulação nesse sentido. As declarações foram dadas à Folha de São Paulo, neste sábado (29).
Bolsonaro revelou ter debatido com militares a elaboração de decretos para instituir Estado de Sítio, Estado de Defesa ou mesmo uma intervenção militar. Ele deve ter discutido essas possibilidades. "O que poderíamos fazer? Como agir? Segundo e não havia um plano concreto, mas era preciso avaliar todos os cenários. A declaração contrasta com as alegações de sua defesa, que, perante o STF, classificou como "absurda" a ideia de que houve tentativa de golpe após a derrota eleitoral.
O ex-mandatário também mencionou reuniões com auxiliares e militares para "analisar a legalidade de medidas excepcionais", mas insistiu que não houve ação efetiva para interromper a transição de poder. Na entrevista ao jornal, Bolsonaro diz que "jamais passaria a faixa para ele (Lula)." Garantiu nunca ter ordenado nada ilegal. "Conversamos sobre hipóteses, mas tudo dentro da lei", disse. As afirmações, porém, podem complicar sua situação perante a Justiça, já que a Procuradoria-Geral da República (PGR) investiga justamente a existência de suposta conspiração para manter Bolsonaro no cargo.
A entrevista surge em um momento crítico: o STF analisa denúncia contra Bolsonaro por tentativa de obstrução ao processo democrático. O Ministério Público argumenta que o ex-presidente promoveu reuniões com o objetivo de criar um "clima de exceção" após as eleições. As declarações à Folha reforçam indícios de que o tema foi tratado em círculos próximos ao então chefe do Executivo, ainda que ele insista na ausência de "ação prática". Juristas ouvidos pela reportagem avaliam que as novas falas podem ser usadas como prova contextual no processo, ampliando a pressão sobre a defesa, que nega qualquer irregularidade.