CORRUPÇÃO

Assassinato em aeroporto revela rede de policiais ligados ao PCC e Comando Vermelho

A execução de Vinicius Gritzbach expõe a infiltração do crime organizado nas forças de segurança pública em São Paulo

Vinicius Gritzbach foi morto a tiros em novembro de 2024 - Imagem: Divulgação / Polícia Civil / Reprodução / Freepik

William Oliveira Publicado em 26/05/2025, às 08h43

A execução de Vinicius Gritzbach, empresário do setor imobiliário, chocou o país em novembro de 2024. Ele foi morto a tiros por homens encapuzados e armados com fuzis no Aeroporto Internacional de São Paulo. A brutalidade do crime e o local onde ocorreu acenderam um alerta sobre os vínculos perigosos entre o crime organizado e agentes públicos.

A investigação conduzida por uma força-tarefa envolvendo a Polícia Civil, a Polícia Federal e o Ministério Público revelou o envolvimento de ao menos 27 policiais com facções criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Gritzbach era conhecido por sua atuação no mercado imobiliário, mas sua fortuna estava diretamente ligada a atividades ilícitas, incluindo a lavagem de dinheiro para o tráfico. Em delação premiada, ele denunciou policiais que o extorquiam e protegiam criminosos em troca de propinas e bens.

Após o crime, uma série de desdobramentos levou à prisão de diversos agentes da lei. Em setembro de 2024, dois policiais foram presos: Valdenir Paulo de Almeida, o “Xixo”, e Valmir Pinheiro, apelidado de “Bolsonaro”. Com o avanço das investigações, mais seis policiais foram detidos, incluindo o delegado Fabio Baena Martins e os investigadores Cyllas Salerno Elia Júnior, Eduardo Lopes Monteiro, Marcelo Roberto Ruggieri (conhecido como “Xará”), Marcelo Marques de Souza (“Bombom”) e Rogério de Almeida Felício (“Rogerinho”). A empresária Danielle Bezerra dos Santos, esposa de Rogerinho, também é investigada e segue foragida, apesar do mandado de prisão expedido contra ela.

Além dos policiais, o delegado Alberto Pereira Matheus Júnior é investigado, mas permanece em liberdade. A operação também levou à prisão do advogado Ahmed Hassan Saleh, conhecido como “Mude”, suspeito de atuar como elo entre os criminosos e agentes públicos. Empresários como Ademir Pereira de Andrade e Robinson Granger de Moura (“Molly”) estão sob investigação por suspeita de lavagem de dinheiro e ligações com o PCC.

A força-tarefa que investiga o caso atua em três frentes: a Polícia Civil apura o homicídio; a Polícia Federal investiga a corrupção e os vínculos com facções; e a Polícia Militar avalia o comportamento irregular de seus agentes que faziam a segurança do empresário. A constatação de que munições usadas na execução pertenciam à corporação agrava ainda mais o escândalo.

Os mandantes do assassinato foram identificados como Emilio Carlos Gongorra Castilho, o “Cigarreira”, e Diego dos Santos Amaral, conhecido como “Didi”. A suspeita é de que Gritzbach tenha desviado valores milionários das facções, o que teria motivado sua execução.

Especialistas em segurança afirmam que o caso escancara uma perigosa infiltração do crime organizado nas instituições públicas. Promotores alertam para uma “cooptação sistêmica” de agentes da lei por facções que operam com poder e impunidade.

A Secretaria da Segurança Pública (SSP) afirmou, em nota oficial, que não tolerará desvios de conduta e garantiu que todos os envolvidos serão responsabilizados. No entanto, entidades civis e especialistas criticam a atuação do governo e questionam se as medidas serão realmente eficazes para restaurar a credibilidade das forças de segurança.

Confira a nota da SSP na íntegra:

"As forças de segurança do Estado são instituições legalistas que não compactuam com desvios de conduta. Dessa forma, mantém corregedorias bem estruturadas e atuantes para registrar e apurar qualquer denúncia de envolvimento de agentes com atividades ilícitas. No caso do crime citado, por exemplo, 17 policiais militares foram identificados e presos por conta da atuação da Corregedoria da instituição. Já as investigações sobre o homicídio ocorrido em 8 de novembro de 2024, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, seguem em andamento pela Força-Tarefa criada para esclarecer o caso. Diligências continuam com o objetivo de identificar e prender todos os envolvidos"

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