A dor do inocente é a pergunta que nenhuma época conseguiu responder
Marlene Polito Publicado em 09/12/2025, às 09h24
A frase popularizada por uma série coreana, “Bad things at times do happen to good people” não é uma constatação moderna. Ela retoma uma das perguntas mais antigas, inquietantes e irrespondíveis da experiência humana: por que o sofrimento atinge justamente quem não o provocou?
Na tradição bíblica, essa perplexidade encontra forma dramática no Livro de Jó. Um homem justo e íntegro é atravessado por uma sucessão de perdas que não encontra explicação proporcional. É enigma. Não há pedagogia na dor. Há excesso.
Na tragédia grega, a lógica não é diferente. Em Édipo Rei, de Sófocles, o herói descobre que matou o próprio pai e se casou com a própria mãe. Ele se cega voluntariamente; não há castigo imposto. A dor não nasce da culpa, mas de uma força anterior ao próprio querer: o destino, que não é punição moral, é estrutura trágica. Mesmo após a punição, a dor não se encerra.
Séculos depois, na modernidade, essa mesma fratura reaparece sem moldura transcendental. Em A Peste, de Albert Camus, o mal não escolhe caráter. O bacilo não distingue quem erra de quem age corretamente. Crianças, médicos, idosos, todos sofrem indistintamente. O sofrimento deixa definitivamente de ser questão moral para se tornar um dado bruto da existência.
A filosofia formula a pergunta. A arte, por sua vez, não responde. Ela mostra.
Na Pietà, o sofrimento do justo encontra sua imagem mais absoluta. Maria sustenta nos braços o corpo sem vida do filho que não errou. A dor nasce da perda, não da culpa. Tudo ali é pureza ferida. A espiritualidade não funciona como escudo. O sagrado não impede a tragédia e, paradoxalmente, torna-a ainda mais comovente.
Se na Pietà a dor é silêncio, em Caravaggio ela irrompe como choque. Em O Martírio de São Mateus, o ataque acontece em plena luz. O assassino salta da sombra. Não há negociação com o destino. A fé não impede a facada. A violência invade o sagrado sem pedir licença.
O Barroco nos ensina algo incômodo: a luz não protege, apenas revela.
Na famosa imagem de Dorothea Lange, Migrant Mother, já não estamos diante de santos ou mártires. Estamos diante de uma mãe pobre, cercada por filhos, atravessada pela fome e pela incerteza. É a conversão do sofrimento sacro em sofrimento histórico. Agora não pede salvação, pede sobrevivência.
A pergunta é a mesma, apenas muda o cenário: o que ela fez para merecer isso? Nada. Ainda assim, sofre.
Na imagem da criança de cabeça raspada, em primeiro plano, com a cidade destruída ao fundo, não há agressor visível. O mal é difuso. A criança olha para nós como se perguntasse o que ninguém consegue explicar.
Aqui, a frase da série coreana deixa de ser reflexão e se torna evidência. O mundo, afinal, não distribui dor segundo critérios morais.
Em Shirin Neshat, o sofrimento dispensa sangue e ruína explícita. Ele se inscreve no gesto, na marcha das mulheres, no corpo coberto que caminha diante do mar. O mar, símbolo clássico de liberdade, está ali, mas não é acessível. Há travessia sem passagem. Movimento sem libertação.
Aqui, o sofrimento não é acidente nem ataque. É condição estrutural. Vem em forma de destino social.
Talvez o mais perturbador nessa travessia não seja constatar que coisas ruins acontecem a pessoas boas, mas reconhecer que existem forças que se movem antes da decisão, antes da escolha, antes mesmo do querer. Chamamos isso de destino, acaso, estrutura, história. O nome varia; a ferida permanece.
Diante disso, Deus parece escolher o silêncio. Não um silêncio de abandono, mas de mistério. Um silêncio que não explica nem corrige, apenas acompanha, como Maria acompanha o corpo do filho na Pietà.
Entre o silêncio divino e a brutalidade do mundo, o homem descobre que sua vulnerabilidade é irredutível.
E talvez seja exatamente aí que a arte se torna necessária: incapazes de eliminar a dor, ainda podemos olhá-la, dar-lhe forma, impedir que desapareça sem sentido.
A arte não resolve o dilema entre Deus e o destino, mas oferece ao homem uma última possibilidade de resistência: não desviar o rosto da dor e convertê-la, quando possível, em gesto, imagem, memória.