Ex-presidente da torcida organizada quer “retomar o controle” do Parque São Jorge
Jair Viana Publicado em 01/06/2025, às 11h32
Douglas Deungaro, o “Metaleiro” — ex-presidente da Gaviões da Fiel — reapareceu em vídeo neste sábado (31), ameaçando o presidente do Corinthians, Augusto Melo, e conclamando torcedores a “assumirem o controle” do clube. Ele anunciou que passaria a noite no Parque São Jorge como forma de resistência. A manifestação ocorre em meio à maior crise institucional da gestão Melo, reconduzido ao cargo após a anulação de atos do Conselho Deliberativo.
Embora não ocupe mais cargo formal na principal torcida organizada do clube, Metaleiro ainda exerce forte influência. Seu histórico remonta aos anos 1990, período em que consolidou os Gaviões como um “poder fiscalizador” dentro do Corinthians — simbolizado pela águia no estandarte da torcida, que, segundo ele, “dá bicadas quando necessário”. Em 2007, após o rebaixamento do time, ganhou notoriedade ao invadir o ônibus da delegação em Porto Alegre e agredir jogadores como Everton Ribeiro e Clodoaldo, gritando: “Se caísse, todos iriam apanhar!”
Agora, diante das denúncias que pairam sobre a gestão Melo — que incluem suspeitas de desvio de ingressos e um aumento de R$ 600 milhões na dívida em 2024 —, Metaleiro volta ao centro da crise. Alê, atual presidente da Gaviões da Fiel, ainda não se manifestou sobre as atitudes do ex-líder.
Ameaças e ingressos
Neste sábado, Metaleiro fez ataques diretos a Augusto Melo, afirmando que o Conselho de Ética “não tem poder para afastar Tuma” — referência a Romeu Tuma Júnior, aliado do presidente. Ele sustenta que a recondução de Melo ao cargo é legítima, após a anulação das decisões do Conselho Deliberativo que visavam afastá-lo.
Segundo relatos, na noite de 22 de abril, Metaleiro e outro ex-líder da torcida, conhecido como Padinho, participaram de uma reunião com Augusto Melo no Parque São Jorge. O encontro teve tom tenso: exigiram explicações sobre o inquérito que apura possível associação criminosa envolvendo a gestão VaideBet. Metaleiro teria sido enfático: “Se for indiciado, ele tem que renunciar. É inadmissível um presidente do Corinthians nessa situação.”
Paralelamente, documentos obtidos pela imprensa mostram que Metaleiro recebeu 20 ingressos do setor Norte — espaço tradicionalmente reservado às organizadas — para a partida contra o Bahia. O repasse ocorreu em meio a denúncias de que o clube teria esvaziado o programa Fiel Torcedor para favorecer grupos internos.
Ocupação e resistência
No vídeo divulgado nas redes sociais na sexta-feira (30), Metaleiro afirmou que permaneceria no clube “até que a diretoria ouça a voz das ruas”. A convocação, no entanto, não tem respaldo da atual liderança da Gaviões da Fiel. Em janeiro, a torcida publicou nota oficial contrária ao impeachment de Augusto Melo antes da conclusão do inquérito, defendendo “transparência e ética”.
Enquanto apoiadores de Metaleiro gritam “Não vai ter golpe!” nas redes sociais, críticos relembram episódios violentos de seu passado — como o apedrejamento do ônibus do time em 1997, quando torcedores cercaram a delegação na Rodovia dos Imigrantes.
Polícia acompanha
A Polícia Civil acompanha de perto o clima de tensão. Viaturas foram vistas nas imediações do Parque São Jorge durante reuniões recentes, e há um inquérito em andamento que investiga a possível ligação entre membros do clube e cambistas. Jogadores e comissão técnica — que, em janeiro, foram recepcionados por torcedores no retorno das férias — agora evitam manifestações públicas. Internamente, o temor é de que a escalada política comprometa o desempenho do time no Brasileirão, onde o Corinthians lidera em público (43,4 mil pagantes por jogo), mas ocupa apenas a 8ª colocação na tabela.