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Humor ou crime? Entenda a condenação de Léo Lins e o que diz a Justiça

Justiça Federal condenou o humorista a mais de oito anos de prisão por declarações consideradas preconceituosas feitas durante show classificado como “perturbador”

Defesa do comediante classificou condenação como censura - Imagem: Divulgação

William Oliveira Publicado em 07/06/2025, às 10h01

O humorista Léo Lins, de 42 anos, foi condenado a oito anos e três meses de prisão pela divulgação de discursos considerados discriminatórios durante uma apresentação de stand-up disponibilizada online.

A decisão, emitida pela 3ª Vara Criminal Federal de São Paulo, inclui ainda multa e indenização por danos morais coletivos. Cabe recurso à sentença.

Segundo a Justiça, o vídeo intitulado Perturbador apresenta declarações ofensivas contra diversos grupos sociais: negros, pessoas obesas, idosos, indivíduos com HIV, indígenas, homossexuais, judeus, nordestinos, evangélicos e pessoas com deficiência.

A gravação, que chegou a cerca de três milhões de visualizações, foi removida do YouTube em agosto de 2023 por ordem judicial.

O conteúdo motivou uma ação do Ministério Público Federal (MPF), que classificou as falas como ofensivas aos direitos fundamentais.

A juíza responsável, Barbara de Lima Iseppi, destacou a gravidade do alcance do vídeo e o número elevado de grupos impactados pelas declarações do humorista.

Na sentença, a magistrada afirmou que as performances de Lins "incentivam a propagação da violência verbal" e "promovem a intolerância". Segundo ela, "a liberdade de expressão não deve ser usada como justificativa para discursos odiosos e discriminatórios".

Além da pena em regime fechado, Léo Lins foi condenado ao pagamento de R$ 303.600 por danos morais coletivos.

A defesa do humorista anunciou que irá recorrer da decisão. Em nota, classificou o veredicto como um "triste episódio para a liberdade de expressão no Brasil", comparando a condenação a formas de censura.

Nas redes sociais, Lins publicou uma imagem da deusa Themis, símbolo da Justiça, questionando: “Ironia ou realidade? Arte ou crime?”. A figura aparece no cartaz de seu show mais recente.

Sentença

A juíza Barbara de Lima Iseppi apontou que Léo Lins praticou crimes relacionados à discriminação e à incitação ao preconceito por meio das piadas ofensivas do show Perturbador.

A decisão reconhece violações às Leis nº 7.716/89 (preconceito racial) e nº 13.146/2015 (discriminação contra pessoas com deficiência), considerando agravantes o contexto cultural das apresentações e o grande alcance do conteúdo.

Segundo a juíza, as declarações do comediante causaram “constrangimento, humilhação, vergonha, medo e exposição indevida” a diversos grupos vulneráveis.

"A prática desses atos certamente contribui para a difusão da violência verbal na sociedade e para a não aceitação das diferenças", escreveu a magistrada. Ela acrescentou que “o uso do humor não deve servir como abrigo para discursos odiosos”.

A sentença também rejeitou os argumentos da defesa sobre falhas na obtenção das provas. Segundo a juíza, o conteúdo do vídeo não foi contestado por Lins e havia material técnico suficiente para fundamentar a decisão.

Quem é Léo Lins?

Natural do Rio de Janeiro, Léo Lins iniciou a carreira em 2005 e ganhou destaque nacional em 2008, ao se tornar finalista do quadro Quem Chega Lá, do Domingão do Faustão.

Reconhecido pelo estilo polêmico, participou de programas como Legendários (2010) e integrou o elenco do The Noite com Danilo Gentili (SBT) entre 2014 e 2022. Nas redes, soma 2,9 milhões de seguidores no Instagram e 1,5 milhão no YouTube.

Lins já enfrentou outras polêmicas. Em 2022, foi condenado a pagar R$ 44 mil por danos morais após comentários ofensivos sobre uma mãe de uma criança autista. Piadas sobre crianças com hidrocefalia também geraram forte repercussão negativa.

Liberdade de expressão

A condenação gerou um intenso debate sobre os limites da liberdade de expressão na comédia. Críticos acusam o humorista de perpetuar estigmas sociais. Já defensores alegam que o humor precisa de espaço para provocar, até com temas sensíveis.

Entre os que se manifestaram contra a condenação estão Marcelo Tas, que a classificou como "gravíssima", e Antônio Tabet, que declarou: "É um absurdo... espero que essa decisão seja revertida".

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