Shows de humor com improviso, interação e referências da comunidade conquistam público cada vez maior na capital paulista
Julio Cezar Souza Publicado em 18/05/2026, às 09h00 - Atualizado às 09h54
A cena da comédia LGBTQIAPN+ vive um momento de expansão em São Paulo. O que antes se concentrava em boates e casas noturnas frequentadas pela comunidade agora ocupa grandes teatros, clubes de humor e até turnês internacionais, reunindo plateias cada vez mais diversas.
Com piadas improvisadas, interação constante com o público e apresentações marcadas pelo deboche característico das drag queens, artistas LGBTQIAPN+ vêm reformulando a linguagem do stand-up brasileiro e atraindo também espectadores heterossexuais.
Muito antes de chegar aos palcos tradicionais, esse tipo de humor encontrou espaço em casas históricas da noite paulistana, como Blue Space, além de locais como Medieval, NostroMundo e Homo Sapiens, que ajudaram a consolidar nomes como Silvetty Montilla, Nany People e Salete Campari.
Na época, a presença LGBTQIAPN+ ainda era pouco representada na televisão aberta e nos formatos mais populares de entretenimento. Hoje, uma nova geração de humoristas utiliza as próprias experiências como matéria-prima para os espetáculos.
Entre os nomes que vêm impulsionando essa nova fase estão Bruno Motta, Fernando Pedrosa, Babu Carreira e Júnior Chicó.
Um dos principais símbolos desse crescimento é o espetáculo Gongada Drag, criado por Bruno Motta no fim de 2023. O formato reúne drag queens e comediantes em sessões marcadas por provocações, improvisos e respostas rápidas inspiradas no estilo conhecido internacionalmente como “roast”.
Segundo Motta, a proposta do show nasceu a partir da tradição debochada presente nas apresentações de drag queens da noite paulistana e também da percepção de que existia uma demanda reprimida por humor feito pela própria comunidade LGBTQIAPN+.
O crescimento do Gongada chamou atenção rapidamente. Em 2024, o espetáculo realizou 34 apresentações em São Paulo e em outras cidades do país. No ano seguinte, o número de sessões dobrou e chegou a 70.
Além dos teatros lotados, as redes sociais passaram a desempenhar papel central na expansão desse novo humor. Cortes de apresentações viralizam com frequência e ajudam artistas a alcançar públicos fora dos grandes centros urbanos.
Fernando Pedrosa afirma que os vídeos publicados online ajudaram a criar uma espécie de comunidade virtual. Segundo ele, muitas pessoas de cidades pequenas passaram a acompanhar os espetáculos mesmo sem conseguir assistir presencialmente.
O modelo também mudou a dinâmica dos shows. Diferentemente do stand-up tradicional, baseado em monólogos, a nova geração aposta em improviso, conversas com a plateia e comentários instantâneos durante as apresentações.
Para Babu Carreira, o público atual busca uma experiência mais participativa e espontânea. A humorista acredita que os espectadores deixaram de ocupar apenas o papel de ouvintes e passaram a fazer parte do próprio espetáculo.
Conhecida por abordar temas como bissexualidade, gordofobia e relacionamentos, Babu afirma que encontrou espaço rapidamente na cena paulistana justamente por tratar de assuntos pouco explorados no humor tradicional.
Apesar do crescimento da representatividade LGBTQIAPN+ na comédia, os artistas avaliam que o mercado passa por transformações. Segundo eles, o público tem consumido menos apresentações convencionais de stand-up e demonstrado maior interesse por formatos híbridos, mais próximos da conversa e da interação social.
Ainda assim, o avanço desse tipo de humor indica uma mudança importante na cena cultural brasileira: o LGBTQIAPN+ deixou de ser apenas alvo das piadas e passou a assumir o protagonismo das próprias narrativas.
Babu Carreira é Monstro
Gongada Drag - Edição Terapia com a Dra. Rosangela
Fernando Pedrosa - Xaveca a Plateia e Bebe Vinho
Gongada Drag - Edição Parada LGBT