COLUNA

Tanto Quanto Possível

Câmara dos Deputados durante sessão plenária - Imagem: Reprodução / Agência Brasil / Lula Marques

Matheus Costa Publicado em 21/09/2025, às 10h10

Nesta semana, o Partido Liberal, legenda de Bolsonaro, obteve uma vitória. Parcial, é verdade, como deve se revelar nos próximos dias, mas ainda assim de grande peso e de forte impacto no cenário político atual. Foi aprovado, em regime de urgência, o Projeto de Lei da Anistia, concebido e apresentado em sua versão inicial de forma ampla, irrestrita e sem maiores filtros. Trata-se de uma vitória simbólica, política e estratégica, ainda que os desdobramentos práticos, no curto prazo, possam ser relativizados conforme a tramitação avance.

A votação desse regime de urgência se deu apenas um dia após a aprovação da chamada PEC da Blindagem, evidenciando que não se tratou de mera coincidência de agenda, mas sim de um acordo de bastidor claramente costurado para garantir que o PL da Anistia fosse pautado já no dia seguinte. O fato de deputados que, em outro ambiente político, certamente votariam contra a PEC, terem se alinhado à aprovação, reforça o indício de que a base governista e a oposição estabeleceram uma espécie de trégua momentânea em nome de objetivos estratégicos maiores.

Na quinta-feira, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), designou como relator o experiente deputado federal por São Paulo, Paulinho da Força (Solidariedade). A escolha não foi casual: Paulinho figura entre os parlamentares mais bem relacionados de Brasília. Seu trânsito entre governo e oposição é fluido, seu diálogo com ministros da alta cúpula do STF é antigo e consolidado, e sua habilidade de articulação política é reconhecida inclusive por adversários. Não surpreende, portanto, que Motta o tenha pinçado, em meio a mais de 500 deputados, justamente pela capacidade de construir pontes em momentos de tensão e pelo perfil agregador em debates delicados.

De imediato, Paulinho iniciou rodadas de conversas com governadores de estados-chave, buscando medir o grau de resistência e adesão ao projeto. Além disso, esteve em contato recente com o ex-presidente Michel Temer, talvez um dos poucos que conhecem os meandros do poder de Brasília como ninguém. Temer, com sua conhecida leitura precisa das relações institucionais, tem alertado para a necessidade de cautela e de buscar soluções medianas. A construção de um relatório de “meio termo” já está em curso: a direita segue insistindo em defender uma anistia ampla, enquanto a esquerda martela o argumento de que isso equivaleria a “passar pano” para um golpe institucional.

É fato que o ministro Alexandre de Moraes aplicou penas duras e não poupou o peso da caneta. Contudo, autorizado por seus pares no Supremo, abre-se agora a possibilidade de que o relatório revisite a dosimetria. Caso o cenário se confirme, Bolsonaro poderá ver sua pena reduzida em cerca de 20%, enquanto muitos dos que hoje se encontram presos devem, em um curto espaço de tempo, conquistar a liberdade. Esse é o ponto central que movimenta os bastidores: uma anistia não plena, mas calibrada, suficiente para diminuir tensões sem deslegitimar o Judiciário.

Na segunda-feira, durante o programa Roda Viva, da TV Cultura, Temer resumiu com clareza: “Enquanto trabalharem colocando amigos contra amigos, país contra país e Poder contra Poder, nada avança.” A fala repercutiu fortemente nos bastidores de Brasília. Muitos já sabiam disso intimamente, mas ouvir da boca de Temer reforçou a percepção de que não será possível aprovar algo que agrade a gregos e troianos. A política, como sempre, exige composições, concessões e ajustes de rota.

Assim, o relatório que Paulinho apresentará deve buscar exatamente isso: consenso suficiente para obter aprovação da maioria, ainda que desagrade alas mais radicais dos dois lados. Trata-se de mais uma confirmação de que, em política, sobretudo em temas polêmicos ou em matérias de interesse de grupos internos, a vitória raramente é absoluta. Ela se dá, quase sempre, no espaço do tanto quanto possível.

Em tempo: “tanto quanto possível” significa relativizar uma obrigação ou recomendação, reconhecendo que ela não é absoluta, mas depende das circunstâncias, das condições práticas e, sobretudo, do equilíbrio que o momento histórico exige.

Bolsonaro Governo ALEXANDRE DE MORAES OPOSIÇÃO PAULINHO DA FORÇA Michel Temer BASTIDORES Câmara dos Deputados Partido Liberal articulação política PL da Anistia PEC da Blindagem relatório de meio termo vitória política consenso.

Leia também