Lelé Abdala Publicado em 08/09/2025, às 09h18
Desde pequenos aprendemos a engolir a raiva. “Menina educada não grita.” “Homem forte não chora.” “Não responda.” “Engole o choro.” Essas frases, repetidas geração após geração, parecem inofensivas, mas constroem um veneno silencioso: o hábito de reprimir emoções.
E aqui está a verdade incômoda: a raiva silenciada não desaparece. Ela adoece.
Ela se transforma em gastrite, em dor de cabeça crônica, em insônia, em explosões repentinas que assustam até quem as sente. O corpo carrega o peso do que a boca não diz.
A sociedade condena a raiva porque a confunde com violência. Mas são coisas diferentes. Violência é o que acontece quando a raiva fica represada, acumulada até transbordar. A raiva em si é energia vital. É um alarme do corpo dizendo: “Há algo errado. Aqui existe um limite violado.” Quando a ignoramos, estamos dizendo para nós mesmos que não temos direito a limites.
Carl Jung dizia: “A repressão é como tentar segurar uma mola: quanto mais você pressiona, mais força ela acumula.” É isso que acontece com nossa raiva. Guardamos tanto que, em algum momento, ela escapa — e quase nunca do jeito certo.
O problema é que ensinamos crianças, mulheres, homens, pessoas negras, trabalhadores… a calar. Silenciar é mais conveniente para quem está no poder. O preço? Ansiedade coletiva, corpos adoecidos, relacionamentos carregados de passividade e explosões inesperadas.
A polêmica é essa: a raiva não é inimiga, é bússola. Demonizá-la nos afasta de uma força que poderia ser transformadora. Pessoas que aprendem a acolher sua raiva constroem limites mais saudáveis, relacionamentos mais claros e uma vida emocional mais verdadeira.
Mas como expressar sem ferir? A chave está em dar forma à raiva antes que ela vire fogo. Escrevê-la, falar em voz alta sozinho, praticar esportes, usar a arte como canal. Quando reconhecemos a raiva, ela se dissolve em clareza. Quando negamos, ela vira veneno.
Reflexão para hoje:
“Eu tenho direito de sentir raiva. Ela me mostra onde não quero mais me ferir.”
Não se trata de sair gritando com o mundo, mas de se permitir sentir. Porque, no fim, a raiva não fala de destruição. Ela fala de vida. Ela fala de dignidade. Ela fala de verdade.
Agora é com você:
Nos vemos na próxima coluna.
Com coragem e presença,
Lele Abdala