Copa do Mundo

O Brasil confundiu Marrocos com Portugal?

Seleção acordou tarde, reagiu só depois do susto e deixou a sensação de que Ancelotti demorou demais para mexer em um jogo que pedia coragem.

- Imagem: Reprodução

Ana Beatriz Publicado em 13/06/2026, às 22h09

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A estreia do Brasil contra o Marrocos deixou uma pergunta incômoda no ar: a Seleção entrou em campo sabendo exatamente contra quem estava jogando? Porque, por alguns momentos, pareceu que o Brasil tratou Marrocos como uma equipe comum, previsível, quase protocolar. E Marrocos não é isso. Marrocos é intenso, físico, organizado, competitivo e já provou em Copa do Mundo que sabe incomodar gigantes.

O problema não foi apenas o empate. O problema foi a postura. O Brasil só pareceu ganhar gás depois de levar o primeiro gol. Até ali, faltava urgência, faltava agressividade, faltava aquela sensação de que uma estreia de Copa exige mais do que controle emocional. Exige imposição. A Seleção demorou para entender o jogo e, quando entendeu, já estava correndo atrás do prejuízo.

A reação veio, mas veio com gosto de atraso. Depois do gol marroquino, o Brasil acelerou, pressionou melhor, ocupou o campo ofensivo com mais presença e mostrou que tinha capacidade para ferir o adversário. A pergunta é inevitável: por que precisou sofrer para começar a competir de verdade?

Carlo Ancelotti é um treinador gigantesco. Ninguém apaga sua história, sua leitura de vestiário, sua experiência e sua autoridade. Mas Copa do Mundo não perdoa contemplação. Em jogo travado, a troca certa vale quase como um gol. E a impressão deixada foi de que o banco brasileiro demorou a ser usado com a agressividade que o jogo pedia.

O Brasil precisava de decisões mais cortantes. Precisava de uma mexida com cheiro de vitória, não apenas de administração. Em determinado momento, parecia claro que a Seleção pedia um jogador mais decisivo na área, alguém para atacar espaço, incomodar zagueiro e transformar volume em perigo real. Uma troca como Raphinha por Endrick, por exemplo, tinha cara de movimento para ganhar o jogo, não apenas para sobreviver a ele.

A cada mastigada de chiclete de Ancelotti, ficava a esperança de que viesse também uma mastigada cerebral, uma decisão mais rápida, uma alteração que mudasse o roteiro. Mas o Brasil parecia preso entre a paciência europeia do treinador e a necessidade sul-americana de resolver. Copa é detalhe. Copa é momento. Copa é perceber que o adversário está confortável e bagunçar o jogo antes que seja tarde.

O mérito de Marrocos precisa ser reconhecido. A equipe não entrou para assistir ao Brasil jogar. Entrou para competir. Marcou forte, teve coragem, soube atacar o espaço e não se intimidou com a camisa amarela. O Brasil, por outro lado, oscilou entre talento individual e falta de fluidez coletiva. Quando acelerou, assustou. Quando pensou demais, facilitou.

É cedo para desespero. Foi apenas o primeiro jogo do grupo. Mas também é cedo demais para fingir que está tudo bem. Estreia em Copa pode ser nervosa, pode ser truncada, pode ser pesada. O que não pode é deixar a sensação de que a Seleção tinha mais recursos do que usou.

O empate não elimina ninguém, mas manda um recado. Se contra Marrocos o Brasil precisou apanhar primeiro para acordar, o que acontecerá quando vierem jogos ainda mais duros, com menos espaço, mais pressão e adversários igualmente preparados? A Copa não costuma esperar ninguém amadurecer durante o caminho.

O Brasil tem talento. Tem elenco. Tem treinador. Tem camisa. Mas precisa transformar tudo isso em decisão dentro do jogo. Porque nome não ganha partida, currículo não quebra marcação e tradição não entra na área para fazer gol.

Contra Marrocos, o Brasil não perdeu no placar. Mas perdeu uma chance de estrear com autoridade. E em Copa do Mundo, autoridade também classifica.

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