COLUNA

Neymar ou não Neymar? A pergunta que toda empresa enfrenta quando o seu craque não está em forma

- Foto: ReproduçãoAgência Brasil

Zora Viana Publicado em 19/06/2026, às 08h00

O Brasil inteiro ficou dividido. E não é a primeira vez.

Quando Carlo Ancelotti anunciou os 26 convocados para a Copa do Mundo 2026, o nome que mais gerou debate não foi o de quem entrou. Foi o de quem quase ficou de fora. Entre fevereiro de 2023 e maio de 2026, Neymar acumulou mais de 800 dias afastado dos gramados por problemas físicos, perdendo mais de 114 partidas entre clube e Seleção. Mesmo assim, foi convocado.

Metade do Brasil vibrou. A outra metade questionou.

Mas eu, como psicóloga e especialista em liderança, não estou aqui para falar de futebol. Estou aqui para falar de algo que acontece em toda empresa, toda semana, em alguma sala de reunião do Brasil: o que você faz quando o seu melhor talento não está entregando o que precisa?

O dilema que todo líder conhece

Toda organização tem o seu Neymar. Aquele profissional de talento inegável, com histórico de entregas extraordinárias, que por razões diversas, saúde, momento pessoal, circunstâncias de vida, está abaixo do que se espera dele. E o líder precisa tomar uma decisão que nenhuma planilha resolve.

O erro mais comum é tratar esse dilema como uma questão técnica quando, na verdade, ele é uma questão humana e estratégica ao mesmo tempo.

Ancelotti foi claro desde o início: "Todo mundo conhece o talento dele. No futebol moderno, para aproveitar o talento, o jogador tem que estar em boa condição física." Ao mesmo tempo, acompanhou a recuperação de perto durante todo o ano antes de decidir. Não foi uma decisão impulsiva, nem sentimental. Foi uma decisão baseada em observação contínua, critério claro e comunicação transparente.

Isso é uma liderança madura.

O que os dados dizem sobre o caso

Em 125 partidas pela Seleção, Neymar marcou 79 gols, sendo o maior artilheiro da história do Brasil. Nos jogos finais do Brasileirão 2025, marcou cinco gols em quatro partidas, ajudando o Santos a escapar do rebaixamento. O talento não foi embora. O que estava em questão era a capacidade de sustentar esse talento sob a pressão de um torneio de alta intensidade.

Ancelotti explicou: "Avaliamos o Neymar durante todo o ano e vimos que jogou com continuidade neste último período." Esse é o critério que qualquer líder deveria usar com o seu "craque em recuperação": não o histórico passado, não o potencial futuro, mas a capacidade de entrega no presente, avaliada com consistência e sem romantismo.

Os três erros que os líderes cometem nessa situação

Erro 1: Decidir pela história, não pelo momento

O talento passado não paga as contas do presente. Um profissional pode ter sido extraordinário por anos e estar, hoje, num ciclo de baixo desempenho que compromete o time inteiro. O líder que não consegue separar o afeto pela trajetória da clareza sobre a entrega atual está gerindo com o coração no lugar errado.

Erro 2: Decidir pela pressão externa

A torcida quer Neymar. O mercado quer o nome. A empresa quer o currículo. Mas quem vai jogar o jogo é o profissional, não o currículo. Liderar sob pressão de opinião externa sem ter critérios internos claros é uma receita para decisões que parecem populares e entregam resultados medíocres.

Erro 3: Não comunicar o critério

Quando Ancelotti foi questionado sobre cortes difíceis como Bento e Hugo Souza, ele disse: "Me dá tristeza, mas eles ainda terão oportunidades dentro do projeto para a próxima Copa do Mundo." Ele nomeou a tristeza. Explicou o critério. Manteve a porta aberta. Esse é o modelo de comunicação que preserva a confiança do time mesmo nas decisões mais difíceis.

O que Ancelotti fez que poucos líderes fazem

Ancelotti não escolheu entre lealdade e performance. Ele construiu um critério que honrava as duas coisas: acompanhou de perto, estabeleceu condições claras, avaliou com consistência e comunicou com transparência.

Nas empresas, isso se traduz numa prática que poucos gestores têm coragem de implementar: a conversa honesta e precoce. Não esperar a crise chegar para sentar com o profissional e dizer "aqui está o que eu preciso ver para você seguir nessa posição." Não gerenciar pela omissão, esperando que a situação se resolva sozinha. Não tomar decisões em silêncio e comunicar via e-mail de RH.

A crise do "craque que não está em forma" raramente é sobre o craque. Ela é sobre o líder que não teve a conversa a tempo.

A pergunta que fica

Você tem alguém no seu time que todo mundo respeita pelo histórico, mas que não está entregando no presente? Você já teve uma conversa honesta sobre o que precisa mudar? Você tem critérios claros ou está decidindo por intuição e pressão?

Aos 34 anos, esta deve ser provavelmente a última Copa de Neymar. E o Brasil torce para que o final seja à altura da história.

Nos negócios, também há um momento em que o tempo passa e as chances não voltam. Para o profissional e para o líder que não soube gerir o talento que tinha.

O Neymar da sua empresa está esperando por um Ancelotti. A questão é se você vai ser esse líder.

Zora Viana | Psicóloga, Fundadora e CEO da Faculdade FEX Educação

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Sobre Zora Viana

Zora Viana é psicóloga, neuropsicóloga, psicodramatista, escritora, mestranda e pesquisadora na UMC. Empresária e referência na educação profissional, é sócia-fundadora da Faculdade FEX Educação, única faculdade especializada em criação de universidades e educação corporativa personalizada. Lidera mais de 1.000 empresas com treinamentos e cursos com validade acadêmica.

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