Ricardo Mariath Publicado em 26/01/2026, às 08h00
Em 1992, James Carville, estrategista de Bill Clinton, cunhou a frase que se tornaria o mantra das campanhas políticas: "É a economia, estúpido". A ideia era simples: o eleitor vota com o bolso. Contudo, ao analisarmos as eleições presidenciais brasileiras de 1989 a 2022, a realidade revela uma camada muito mais instintiva. Se quisermos entender quem realmente ganha uma eleição, a máxima precisa ser atualizada: É a emoção, estúpido!. Porque o voto nasce no coração, não na planilha. Sendo a emoção o fator primordial na tomada de decisão eleitoral.
A ciência e a retórica clássica explicam o fenômeno. O cérebro humano, embora capaz de cálculos complexos, é um exímio poupador de energia. O neocórtex, nossa porção racional e lenta, perde frequentemente a disputa para o sistema límbico, a "mente rápida" que processa emoções de forma automática e instantânea. Para o cérebro, analisar planos de governo extensos gera um custo energético alto; já reagir a estímulos de esperança, medo ou indignação é prazeroso e memorável.
É nesse cenário que o discurso emocional (pathos) ganha supremacia sobre a lógica do argumento (logos) ou o caráter do orador (ethos). Aristóteles já ensinava que os juízos do público variam conforme o que sentem: o amor, o ódio, a alegria ou a tristeza alteram a percepção da realidade. Na política, não vence necessariamente quem detém a verdade factual (aletheia), mas quem domina a verossimilhança (eikos) — aquilo que parece verdadeiro e faz sentido dentro da narrativa do eleitor. Somos, acima de tudo, contadores de histórias, e escolhemos nossos líderes com base na coerência das histórias que eles nos contam.
A história recente do Brasil é um laboratório vivo dessa tese. Em 1989, Fernando Collor não venceu apenas por propostas, mas ao construir a narrativa do "novo" contra o "velho", utilizando o impacto emocional negativo contra Lula no apagar das luzes da campanha. Em 2002, o próprio Lula percebeu que a agressividade não vencia pleitos e adotou o figurino "paz e amor", sob o mote de que "a esperança iria vencer o medo".
Mais recentemente, em 2018, Jair Bolsonaro rompeu o sistema tradicional ao canalizar a indignação popular e utilizar a comoção emocional de um atentado para se conectar afetivamente com uma parcela do eleitorado que se sentia órfã de representação. Já em 2022, vivemos o ápice da polarização afetiva, o "Fla-Flu" político, onde a decisão foi pautada por identidades tribais e pela memória emocional de tempos passados.
Atualmente, essa dinâmica ganhou esteroides tecnológicos. Com o uso de Big Data e Inteligência Artificial, campanhas conseguem mapear traços de personalidade e entregar narrativas customizadas que agem diretamente nos gatilhos emocionais de cada cidadão. A mensagem política hoje é um "microdirecionamento" que busca a área de menor resistência do cérebro.
Compreender que o voto é um processo emocional não é um convite ao cinismo, mas um alerta democrático. Quanto mais o cidadão entende que as narrativas são desenhadas para sensibilizar sua subjetividade, mais forte se torna a democracia. Afinal, em uma disputa eleitoral, os argumentos técnicos podem até preencher as planilhas, mas é a conexão afetiva que preenche a urna.
Vence quem primeiro toca o coração; o resto é justificativa racional para uma escolha que a emoção já fez.