COLUNA

Carta aberta a José Dirceu

Mesmo fora da política há 20 anos, Zé Dirceu continua a mobilizar pessoas de todos os setores da sociedade brasileira. - Imagem: Reprodução | O Globo

Roberto Podval Publicado em 14/03/2025, às 08h19

Era uma terça-feira à noite em Brasília. O destino era um bar no setor de clubes, mas algo inusitado aconteceu: o trânsito, que normalmente flui sem grandes entraves na cidade, estava completamente parado a quadras do local. Um engarrafamento que não andava.

A solução foi descer do carro e seguir a pé. Não fui o único. Dezenas de outras pessoas tomaram o mesmo caminho, andando pela grama ou entre os carros. Havia um movimento incomum para aquela noite e aquele lugar.

Quando cheguei, a fila se repetia na porta, mas, desta vez eram pessoas. De todas as idades, todas as cores e todos os credos. De banqueiros e empresários a trabalhadores. De representantes da alta cúpula do Executivo, do Judiciário e de todos os espectros do Legislativo a servidores públicos e militantes. Parte da imprensa de folga e parte a trabalho. Todos em fila. E não era para um show ou um jogo de futebol.

Passei pelo procedimento de entrada: registro de dados, retirada do cartão de consumação e pronto. Ao entrar, um mar de gente já lotava o espaço. Havia uma atmosfera de reconhecimento. Todos dispostos a enfrentar a agitação para parabenizar o aniversariante José Dirceu.

Me pego quase hipnotizado pela cena. Mais de mil pessoas ali, pagando consumação, por um aperto de mão, por um abraço, para trocar algumas palavras com Zé Dirceu no meio da multidão. Ele com algo a dizer, uma história para contar, para cada um que encontrava. Seu magnetismo e a capacidade de se conectar com as pessoas saltam à vista. Sejam eles aliados ou adversários políticos, sejam parceiros de décadas ou de projetos eventuais. 

Mesmo sem cargo público há quase 20 anos, Zé Dirceu, com seu peito aberto e mente afiada, ainda conserva a melhor das características do bom político: a capacidade de interlocução voltada à conciliação. É conhecido e respeitado por isso tanto dentro do Brasil quanto fora. Lembro que é recebido nos Emirados Árabes, na Rússia, nos Estados Unidos – tanto por democratas quanto por republicanos –, mas também na China, na Venezuela e em Cuba.

E me pergunto: como mantém tamanha capacidade de mobilização? Qual o segredo dessa liderança? Três vezes preso, exposto, atacado. Na Lava Jato, viu sua família arrastada ao centro de um processo marcado por interesses políticos. Ainda assim, manteve-se fiel à sua história, às suas convicções. Não cedeu.

E o Brasil, paradoxalmente, se dá ao luxo de prescindir de um político com sua experiência, sua habilidade de articulação, sua compreensão do jogo político. 

Saio do bar sem conseguir falar com Zé Dirceu, sem dar o meu abraço. Mas a imagem da noite não sai da minha cabeça. A multidão, a diversidade, a mobilização espontânea. Tudo prova da força de sua liderança ainda viva. E é por isso que escrevo esta carta aberta, para dar meu abraço a Zé Dirceu.

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