Rachel Sheherazade

Camila Camila e o grito ignorado por gerações

Clássico do Nenhum de Nós revela uma história real de violência contra a mulher e expõe como a sociedade, ontem e hoje, ainda escolhe não escutar o que a música denuncia.

- Imagem: Rachel Sheherazade

Ana Beatriz Publicado em 28/04/2026, às 18h01

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Quando a música “Camila, Camila” começou a tocar nas rádios, eu tinha apenas 13 anos. Para mim, soava como qualquer outra música romântica dos anos 80. Mas, ela tinha uma mensagem muito forte, que eu só fui entender anos depois.

A canção da banda gaúcha "Nenhum de Nós", fez muito sucesso. Nos shows, era a mais pedida e o grupo se apresentava regularmente em todos os programas de maior audiência na televisão. Eu era muito nova para entender que apesar das notas melodiosas que sugeriam amor, na verdade, aquela música falava de dor, de humilhação, de impotência, de violência…

E eu que tenho medo até do seu olhar
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega
A lembrança do silêncio daquelas tardes
Daquelas tardes
Da vergonha do espelho naquelas marcas
Naquelas marcas
Havia algo de insano naqueles olhos
Olhos insanos
Os olhos que passavam o dia
A me vigiar, a me vigiar, oh
Camila, Camila
Camila…


Camila é um nome fictício. Mas, a história da música é de uma pessoa real, cujo nome foi mantido em sigilo. A jovem de 17 anos era colega dos integrantes da banda, e sofria abusos físicos e psicológicos de seu parceiro.

Às vezes, peço a ele
Que vá embora
Que vá embora, oh
Camila, Camila
Camila
E eu que tenho medo até de suas mãos
Mas o ódio cega e você não percebe
Mas o ódio cega…


Anos 80. Infelizmente, aquele era um tempo em que as mulheres apanhavam caladas,  um tempo em que não se falava abertamente de misoginia, violência doméstica, feminicídio…

Parecia que havia um pacto de silencio na sociedade, em que todos acordavam em deixar toda essa sujeira embaixo do tapete. Problematizar pra que?

Outra coisa que me chama a atenção quando revejo as apresentações da banda tocando "Camila Camila", é a completa alienação da platéia, que canta e dança alegremente, alheia à história da desgraça de uma mulher…

Me espanta a total falta de senso crítico! É como se todos ouvissem, mas ninguém escutasse aquele grito de socorro.

E se alguém, na platéia, entendia o que cantava e, ainda assim, não se incomodava, isso é ainda mais grave por que revela a total indiferença à violência contra a mulher. Alienação, desprezo, falta de empatia … isso não ficou nos anos 80, onde todo absurdo parecia normal.

Absurdo maior é hoje. Com tanta informação circulando, com tanta gente se mobilizando, com tantos debates acontecendo… e ainda tem gente que normaliza e defende a inferioridade da mulher, a submissão feminina, a misoginia e a violência, trocando os papéis da vitima e do algoz.

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