André Molinari Publicado em 06/08/2025, às 09h25
Muito antes das novelas moldarem os costumes, antes do café ser servido à mesa ou do samba ecoar nos becos, já existia no Brasil uma força ancestral pulsando: a cultura e a religião africana tradicional. Essa presença, enraizada nas senzalas e elevada nos terreiros, não apenas sobreviveu à escravidão — ela moldou o Brasil. Da linguagem aos temperos, das músicas aos ritos de passagem, a influência africana é fundadora da identidade brasileira.
No entanto, essa mesma força que tanto deu ao país foi, por séculos, silenciada. O Candomblé, uma religião de beleza poética e sabedoria prática, foi marginalizado. Seus sacerdotes perseguidos. Seus ritos, demonizados. Tudo isso por um racismo estrutural que ainda persiste e por uma lógica colonial que tentou apagar a espiritualidade negra da história nacional.
O preconceito contra o Candomblé não surgiu por acaso. Ele foi arquitetado. Desde o século XIX, discursos pseudocientíficos e religiosos associaram a cultura africana à selvageria, à ignorância, à “coisa do mal”. Essa visão distorcida criou uma ferida cultural profunda: um país que ama o acarajé, mas teme a baiana; que dança ao som do atabaque, mas desconfia do terreiro.
Essa contradição se reflete no cotidiano. O Brasil é um país onde nomes como Iemanjá, Oxóssi e Xangô fazem parte de músicas populares, escolas de samba e até marcas comerciais — mas falar em Orixás no ambiente de trabalho ainda pode gerar olhares atravessados. Onde se acende incenso em lojas esotéricas, mas se repreende a pemba e a defumação afro-brasileira.
E, no entanto, que poesia habitam os Orixás! Oxum, senhora das águas doces, ensina sobre o amor próprio e o cuidado com o outro. Ogum, guerreiro de ferro, guia nas batalhas da vida. Iansã, a dona dos ventos, lembra que tudo muda e que o caos também tem sabedoria. Os Orixás não são apenas deuses distantes — são arquétipos vivos que refletem o humano em sua potência e fragilidade.
No cotidiano, o Candomblé oferece mais do que fé. Ele oferece direção. O jogo de búzios, por exemplo, é uma tecnologia ancestral que auxilia na tomada de decisões com precisão espiritual e sabedoria prática. Consultar os búzios é, muitas vezes, buscar alinhamento com o destino e com o Orí — a cabeça, a consciência, o verdadeiro Eu.
Enquanto religiões eurocentradas centralizam o divino em figuras hierárquicas e distantes, as tradições africanas propõem uma espiritualidade relacional, em que o humano, o ancestral e a natureza caminham juntos. Essa visão de mundo propõe respeito ao tempo da vida, escuta dos sinais, equilíbrio com o meio.
Valorizar o Candomblé é valorizar o Brasil profundo, o Brasil que resistiu. É reconhecer que nossa cultura não é branca, europeia ou americana. É negra, indígena, mestiça, múltipla. É tambor e silêncio, é feijoada e palavra, é dança e reza. É orixá.
Se quisermos um país mais justo, é preciso curar a ignorância que gera preconceito. É preciso dizer, com clareza, que o Candomblé é cultura, é fé, é identidade. E, sobretudo, é resistência.