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Esportes

A história de Allan Cole, o grande amigo de Bob Marley que jogou no futebol brasileiro

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A história de Allan Cole, o grande amigo de Bob Marley que jogou no futebol brasileiro

Nos 40 anos da morte de Bob Marley, contamos a trajetória do ex-jogador do Náutico que acompanhou o Rei do Reggae e foi o primeiro homem da América Central a jogar no Brasil

Já ouviu falar de Allan Cole? Pois bem, ele e um certo Robert Nesta Marley formavam uma parceria e tanto na Jamaica dos anos 70: o grande ídolo da música e a estrela do futebol local. Era como se Roberto Carlos e Pelé, as versões jamaicanas deles, fossem amigos íntimos. Todos os meninos – de Kingston aos vilarejos mais distantes – queriam ser aquela dupla.

Bob Marley, lenda da música, você já deve ter ouvido falar. Mas Cole não foi um mero coadjuvante na história de Bob, uma testemunha passiva da trajetória gloriosa do Rei do Reggae, cuja morte completa 40 anos nesta terça-feira. Skill, como era conhecido, teve uma vida extraordinária: foi o jogador mais jovem da história a vestir a camisa da seleção jamaicana, uma lenda do futebol local, produtor e empresário de Bob Marley e da banda que o acompanhava, os Wailers, compositor de músicas de sucesso internacional. Viu pessoalmente a monarquia da Etiópia ser derrubada. Foi preso por tráfico de drogas.

E, além de tudo isso, foi o primeiro homem da América Central a jogar no Brasil.

Sim: o amigo de Bob Marley, embora quase ninguém saiba, jogou aqui. Na década de 70. Em Pernambuco.

No Clube Náutico Capibaribe.

ENCANTAMENTO IMEDIATO

 

Oitocentos dólares líquidos por partida. Era isso que o Náutico ganharia em outubro de 71 para fazer uma excursão internacional, comum para os times brasileiros daquela época, convidados frequentemente para mostrar ao mundo o “jogo bonito” que fora consagrado pelo tri mundial do ano anterior.

O destino não era a Europa, reservada a clubes como o Santos de Pelé. O Timbu jogaria na América Central, em Trinidad e Tobago, Jamaica e Haiti, enfrentando combinados locais de cada um desses países.

Valia a pena. De acordo com a estimativa do técnico Nelson Lucena, convertido em cruzeiros e multiplicado por oito – a quantidade de jogos -, o valor pagaria todos os salários atrasados do Timbu e permitiria ao clube adiantar o de alguns jogadores até fevereiro.

Sem falar nos hotéis de primeira, nos voos de avião prometidos pelo empresário indiano que bancara a viagem e no mar azulzinho do Caribe.

 

Era uma oportunidade irrecusável.

 

Na América Central, o Timbu fez oito jogos, dos quais venceu três, empatou quatro e perdeu somente um. Mas, 40 anos depois, os resultados são irrelevantes.

O fato mais marcante da excursão é que foi durante ela que o Náutico fez a contratação mais inusitada de sua história: um jamaicano de 21 anos, rastafari, que tinha um toque de bola claramente mais refinado do que o de seus compatriotas.

Ele mesmo: Allan Skill Cole. Segundo alguns, o melhor amigo de Bob Marley.

Allan Cole antes - Arquivo/Diario de Pernambuco

Antes e depois de Allan Cole - Arquivo DP/Steven Golden

Allan Cole, que jogou no Náutico na década de 70, hoje mora em Kingston

ARRASTE E VEJA O ANTES
ARRASTE E VEJA O DEPOIS

— Ele era muito bom. Muito técnico. Não era assim raçudo, mas a bola batia no pé dele, e ele colocava onde queria – lembra Fernando Camutanga, que viria a ser seu colega de Náutico dali a poucas semanas.

A torcida jamaicana o adorava. Num dos amistosos contra o Náutico, Cole envolveu-se em confusão com o zagueiro alvirrubro Bira. Soco para lá, empurrão para cá, e ambos foram expulsos – mas tiveram que voltar depressa ao campo, tamanha era a revolta dos caribenhos com a impossibilidade de desfrutar do jogo de Skill por mais alguns minutos.

Encantada, a diretoria alvirrubra fez a proposta ali mesmo: Cole aceitaria vir ao Brasil e deixaria para trás na Jamaica o futebol e a música, ramo em que já trabalhava àquela altura?

— Era um tempo em que o Brasil era o melhor do time do mundo, a melhor liga do mundo, tinha os melhores jogadores do planeta. Pra mim foi uma época muito interessante e desafiadora. Ir ao Brasil naquela era foi algo extraordinário para um jogador do Caribe.

Cole foi seduzido pela ideia de jogar contra jogadores como Pelé, Tostão, Paulo César Caju, Piazza e Carlos Alberto Torres – nomes que ele cita de bate-pronto, sem precisar esquadrinhar a memória.

— Esses eram os famosos. Os melhores caras que você podia enfrentar.

O entusiasmo das duas partes era tão grande que as formalidades foram dispensadas. Não havia necessidade de assinar logo o contrato. Isso seria acertado no Brasil.

No dia seguinte à proposta, acredite se quiser, Allan Cole foi com o Náutico para o Haiti. E uma semana mais tarde, em novembro de 1971, desembarcou no Recife como jogador alvirrubro.

Diario de Pernambuco anunciou assim a chegada de Allan Cole ao Náutico - Reprodução/Diario de Pernambuco

Diario de Pernambuco anunciou assim a chegada de Allan Cole ao Náutico – Reprodução/Diario de Pernambuco

“ÍDOLO POR UMA SEMANA”

 

No Recife de 1971, quase ninguém havia visto em carne e osso alguém que nascera em outro país. Menos de 4 mil estrangeiros viviam na cidade, cuja população, àquela altura, já ultrapassava um milhão de habitantes.

A maioria dos pouquíssimos gringos que moravam na capital pernambucana era composta por europeus, especialmente italianos e portugueses. Jamaicano? Não havia nenhum

 

A contratação de um jogador de origem tão exótica por um dos maiores clubes da cidade foi, portanto, um acontecimento.

 

— Todo mundo queria saber quem era ele e queria ver ele jogar — diz Levinaldo Aragão, jornalista que cobriu a passagem de Cole pelo Brasil.

A contratação foi noticiada com destaque pelos principais jornais de Pernambuco, que exaltavam a qualidade técnica de Allan Coll. Ou Colle. Ou Col – os jornalistas jamais chegaram a um consenso a respeito da grafia do sobrenome dele. Ou até do nome, não raras vezes escrito incorretamente como Alan, com um “ele” só.

Foi uma negociação tão inusitada que também repercutiu na imprensa nacional. Sua estreia, por exemplo, foi assunto na edição vespertina do Globo, principal diário carioca.

O Globo noticiou primeiro jogo de Allan Cole - Reprodução/O Globo

O Globo noticiou primeiro jogo de Allan Cole – Reprodução/O Globo

O primeiro jogo de Cole em 26 de novembro de 71 foi animador. Mais de oito mil torcedores foram aos Aflitos para um amistoso contra o Sport. Dois terços deles, calcularam os jornalistas, estavam lá para ver de que material aquele jamaicano era feito.

A julgar pelos relatos eufóricos, Skill correspondeu à expectativa. Foi ele o autor do gol do Timbu no empate em 1 a 1 com o Leão, além de ter demonstrado “oportunismo e futebol rápido e consciente”, segundo a avaliação do Diario de Pernambuco.

Parecia o prenúncio de que algo grandioso estava por vir. Cole poderia ser o aguardado substituto de Bita, o grande herói da história do Náutico, que havia saído do Timbu poucos anos antes.

Mas, sem aviso prévio, após um brilho fugaz, o atacante foi embora. Dias depois de desembarcar cercado de expectativa e fazer gol em clássico, Cole voltou à Jamaica. Ele foi “ídolo durante uma semana”, na definição precisão da edição de retrospectiva do ano do Diario de Pernambuco.

O entrave que afastava Cole dos Aflitos era financeiro. O atacante queria o dobro – 400 dólares mensais – do que o Timbu oferecia. Como não haviam assinado o contrato e a distância entre as propostas era grande demais, ele decidiu voltar para casa.

Hoje, porém, Cole oferece uma nova visão do assunto, contrariando o que se noticiou na época.

– Eu tive que voltar, eu tinha algumas coisas a fazer… você não pode simplesmente deixar um país assim, você tem problemas, família, coisas domésticas, (coisas a resolver) antes que eu pudesse voltar ao Brasil.

 

POUCO DESTAQUE EM CAMPO

Allan Cole enviou telegrama ao Náutico para anunciar que queria voltar - Arquivo/Diario de Pernambuco

Allan Cole enviou telegrama ao Náutico para anunciar que queria voltar – Arquivo/Diario de Pernambuco

— Cole decide to return Brasil.

Foi com essas palavras, misto de inglês e português, que Cole comunicou ao Náutico, via telegrama, que queria voltar, menos de três meses depois de deixar o Brasil.

O clube entendeu que valia a pena resgatá-lo e enviou à Jamaica em fevereiro de 1972 o médico Omar Braga como emissário, porque ele tinha uma habilidade raríssima naquela época: dominava o inglês.

O “doutor”, como Cole se refere a ele até hoje, cumpriu o prometido e, após alguma negociação, trouxe-o na bagagem. Seria o principal tradutor de Skill no Brasil, ao lado do jornalista Vitorio Mazilli.

Allan Cole (E) assina contrato com o Náutico na companhia do médico do clube Omar Braga (D) - Reprodução/Jamaica Gleaner

Allan Cole (E) assina contrato com o Náutico na companhia do médico do clube Omar Braga (D) – Reprodução/Jamaica Gleaner

De volta ao Náutico, Allan Cole fez parte do time que jogou o Pernambucano e Taça Eraldo Gueiros. Vencida pelo Timbu e batizada em homenagem ao governador da época, essa competição deu vaga ao time para o Brasileirão de 1972.

Era ali onde estariam os gigantes. Onde jogariam Pelé, Tostão, Carlos Alberto e os demais titãs do futebol nacional.

O desempenho de Cole, contudo, não foi o que o Náutico e sua torcida esperavam. Segundo os dados do historiador Luciano Guedes Cordeiro, o atacante disputou 20 jogos com a camisa alvirrubra e marcou somente três gols, um no amistoso contra o Sport, um em partida não-oficial contra o Central e o último diante do Ferroviário, na Taça Eraldo Gueiros.

Nenhum no maior palco, contra adversários que ele tanto ansiara por enfrentar.

Skill foi embora no iniciozinho de 1973 após poucos jogos, quase nenhum brilho e muitas lesões, dispensado pelo Náutico.

Allan Cole jogou no Náutico entre 1971 e 1972 - Reprodução/Diario de Pernambuco

Allan Cole jogou no Náutico entre 1971 e 1972 – Reprodução/Diario de Pernambuco

INTERCÂMBIO CULTURAL, AMIZADES E MÚSICA

 

A influência de Allan Cole no Recife do início dos anos 70 foi menos esportiva e mais cultural.

Hospedado em um casarão no bairro do Espinheiro, perto dos Aflitos, usada como concentração pelo Náutico, ele fez amizades que guarda com carinho até hoje e que superaram a barreira linguística.

— Ele era legal. Nos demos muito bem. Ele tocava aquelas músicas dele, o pessoal ensinou logo os palavrões. Era um cara gente boa, brincalhão — lembra Camutanga, nome ainda mais curioso quando pronunciado por um falante de inglês como Cole.

Cole é lembrado pelos que conviveram com ele como um cara divertido e fã de música. No Brasil, apaixonou-se pelo som de Tim Maia e Roberto Carlos. E trouxe um pouco da Jamaica consigo – embora Bob Marley fosse tão conhecido aqui quanto ele próprio, Cole, era antes de acertar com o Náutico. Dois ilustres desconhecidos.

Bob poderia andar tranquilamente nas ruas do centro da cidade que não seria abordado por ninguém com um pedido de autógrafo. Já outro cantor de reggae jamaicano talvez tivesse mais dificuldade.

— Eu toquei muito Bob Marley e The Wailers, mas ninguém conhecia eles naquela época. Eles só conheciam Jimmy Cliff no Brasil, mas levei muitas músicas de Bob comigo e costumava tocar todo dia.

Skill não se apresentava só na concentração e sua plateia não eram apenas os companheiros do Náutico. Em abril de 1972, por exemplo, ele participou como convidado de honra da Ginkana Jovem, um evento musical promovido pelo Baile Português, clube que a juventude abastada do Recife frequentava.

Mais do que a música, seu visual era o que chamava atenção. O cabelo black power até já estava na moda, mas não naquela altura e quase nunca acompanhado da espessa barba que Cole ostentava.

Houve quem aderisse ao estilo para imitá-lo, como Michel Fuad Facury, frequentador das altas rodas da sociedade pernambucana e torcedor apaixonado do Náutico. “Fã incondicional” de Cole, ele passou a usar uma vasta cabeleira e a barba enorme. Um luxo, garantia a coluna social Faixa Jovem, do Diario de Pernambuco.

Faixa Jovem falou sobre influência de Allan Cole - Reprodução/Diario de Pernambuco

Faixa Jovem falou sobre influência de Allan Cole – Reprodução/Diario de Pernambuco

CRÍTICAS E FALTA DE COMPREENSÃO. RACISMO?

 

A receptividade e adesão ao estilo de Alan, porém, não foram unânimes. Ao mesmo tempo em que influenciou outros jovens, inclusive os grã-finos, o blackpower foi objeto de críticas da geração anterior, profundamente conservadora e influente num país que vivia o período mais duro da ditadura militar – os anos de chumbo, em que a repressão política e social apertava ainda mais os pescoços de quem saía da linha.

O cabelo de Allan Cole foi tema recorrente desde que ele chegou ao Recife. Ou mesmo antes de vir. O treinador Nelson Lucena, major do exército, garantiu que, para assinar com o Náutico, Skill precisaria cortar metade de sua “vasta cabeleira”.

Cabelo blackpower causou polêmica no Náutico - Reprodução/Diario de Pernambuco

Cabelo blackpower causou polêmica no Náutico – Reprodução/Diario de Pernambuco

Verdade que, diante da negativa de Allan Cole, o técnico garantiu que o jamaicano teria lugar em campo qualquer que fosse o estilo – desde que jogasse bola.

— Ele pode jogar com a cabeleira, usar roupas extravagantes… Jogando futebol bem e servindo ao clube, é o que me interessa, garantiu, em entrevista ao Diario em novembro de 71.

Mas Lucena era voz solitária. E nem durou tanto nos Aflitos. Foi substituído por Gradim em 72, que deu lugar a João Avelino em 73. O novo técnico, ao chegar, impôs uma medida emergencial, que segundo ele ajudaria o time a evoluir: todos os jogadores precisariam ter os cabelos “decentemente cortados”.

Ao ver Cole no clube -o black power apenas parcialmente escondido por um gorro- o treinador riu-se, mas deixou claro que o jamaicano estava liquidado com ele.

– Esse gringo, com essa cabeleira, só serve para partidas amistosas.

Cole, a essa altura, estava negociando sua rescisão de contrato com o Náutico, já que não vingara como jogador. Mas aquele foi o ponto decisivo para o fim da relação.

 

Porque, lembre-se, ele é rastáfari.

 

Os cabelos são sagrados para os praticantes da religião – é por isso que Bob Marley, por exemplo, jamais abriu mão de seus dreadlocks, visual que o próprio Skill adotou depois que voltou à Jamaica.

Sugerir apará-los é o equivalente a uma heresia.

– Pedir para pessoas como eu e outros para cortar nossos cabelos pode ser visto como um sacrilégio.

Desde o início, Cole afirmou que preferia abandonar o fute

Apesar disso, ele não acredita que tenha sido vítima de racismo ou de intolerância religiosa. Não que não esteja conectado a esses assuntos, especialmente à questão racial. Numa das entrevistas por vídeo que concedeu ao ge, Cole estava no terraço de sua casa, em Kingston, em frente a um mural que tem duas figuras pintadas: Bob Marley e Marcus Garvey, ativista jamaicano pela causa negra.

— Eu não coloco isso (racismo) na equação. Eu sabia que existia, mas nunca tive esse problema no Náutico. Honestamente, não. Acho que era mais algo daquele tempo, que as pessoas não compreendiam muito bem.

Depois de sair do Timbu, Cole ainda foi ao Arruda, flertou com o Santa Cruz, mas acabou decidindo por voltar para casa, onde seguiria carreira no Santos de Kingston. O fim da trajetória como atleta foi na Etiópia, espécie de lar espiritual para os rastafaris de todo o mundo, de onde viu, assustado num quarto de hotel, os comunistas tomarem o poder e derrubarem a monarquia.

Hoje um senhor idoso, Cole não se arrepende de ter ido embora do Brasil. Mas sente falta, isso sim, de jamais ter voltado.

— Eu ainda lembro muita coisa do português. “Obrigado”, “Você é meu amigo”. Eu lembro de todos os meus amigos no Náutico, Barbosa Lima, o presidente, o doutor Omar Braga, Ademiro, o massagista. Meus colegas de time, Oscar, , Marinho, Zé, Mário César, Ubirajara, Lula, Camutanga. Eu ainda lembro de muito desses caras e sempre penso neles, eram caras incríveis e eu amo eles. Eu amo o Náutico.

Allan Cole hoje vive em Kingston, numa casa cujo muro tem a imagem de Bob Marley desenhada - Reprodução/TV Globo

Allan Cole hoje vive em Kingston, numa casa cujo muro tem a imagem de Bob Marley desenhada – Reprodução/TV Globo

RELAÇÃO COM BOB MARLEY

 

Antes de se tornar um ícone da música, Bob Marley foi um garoto tímido. Nascido em um vilarejo distante de Kingston, Nine Mile, ele era filho de mãe negra e de pai branco, um capitão da marinha britânica. A mistura lhe rendia desvantagem de saída: ele não se encaixava em nenhum dos estratos da rígida sociedade jamaicana.

— Os negros o rejeitavam por ele ser metade branco. Sua própria avó o chamava de “garotinho alemão”. E ele também era rejeitado pelos brancos, porque era um jovem negro, quase órfão — explica Roger Steffens, maior especialista de reggae no mundo e autor do livro “So much things to say – the oral history of Bob Marley”, em processo de tradução para o português, mas ainda sem título oficial no idioma.

A amizade de gente como Allan Cole, uma estrela do futebol jamaicano desde os 15 anos, foi importante para Bob Marley e o ajudou, contam biografias e documentários, a ser uma pessoa mais sociável e confiante.

A relação entre eles começou com o futebol. No livro “Queimando Tudo”, o jornalista americano Timothy White conta que Bob idolatrava o talento de Skill com a bola nos pés.

Dos campos, a amizade foi para a música. No final dos anos 60, Cole tornou-se um misto de empresário e produtor de Bob Marley e dos Wailers, que não conseguiam acessar o grande público. Faziam sucesso no gueto, mas dificilmente eram tocados nas festas de outras partes de Kingston. Nas rádios, então, nem pensar.

— Em 1974 as estações de rádio na Jamaica estavam tocando “I Shot the Sheriff” de Eric Clapton e não a versão de Bob Marley — diz Steffens.

Roger Steffens é considerado o maior colecionador e pesquisador de reggae do mundo - Divulgação

Roger Steffens é considerado o maior colecionador e pesquisador de reggae do mundo – Divulgação

Na Jamaica daquele tempo, você só tocava na rádio se tivesse contrato assinado com uma das duas grandes gravadoras que dominavam a indústria fonográfica local. Artistas como Bob Marley e os Wailers, donos do selo independente Tuff Gong, não tinham nenhuma chance – a não ser que tivessem Allan Cole e um par de brutamontes para assegurar a execução dos seus sucessos.

Embora tivesse outras atribuições na época, o maior legado de Cole para a carreira de Bob foi abrir caminho para que ele fosse tocado nas rádios. Se havia violência de verdade ou apenas a sugestão dela, nem a maior autoridade em reggae do planeta é capaz de dizer.

— Bob sentava no carro fora da estação de rádio, Skill e dois fortões entravam na estação enquanto o radialista estava no ar, davam o álbum que Bob tinha lançado e diziam: “Você vai tocar esse álbum”. Bunny (Wailer, membro da banda) afirma que não era violento, outras pessoas dizem que sim, mas sem dúvida era uma ameaça.

Violência real ou sugerida, pouco importa. O fato é que a estratégia deu certo. Bob começou a tocar nas rádios e estourou nas paradas jamaicanas, que logo seriam pequenas para tamanho sucesso.

Bob Marley, em primeiro plano, é observado por Allan Cole - Arquivo Pessoal

Bob Marley, em primeiro plano, é observado por Allan Cole – Arquivo Pessoa

OFUSCOU PELÉ

 

Na Jamaica, esperava-se que outros filhos da terra também dominassem o mundo em áreas afins. Cole, por exemplo, era considerado o melhor jogador jamaicano da época. Muitos o classificam até hoje como o maior de todos os tempos.

Mas sua carreira não decolou internacionalmente. Depois da passagem pelo Brasil, ele teve uma nova chance de provar seu valor. Em 75, o Santos de Kingston enfrentou o Cosmos-EUA. Mais de 45 mil pessoas foram assistir à partida, que contrapunha Cole a ninguém menos que Pelé.

Os torcedores, um dos quais era Bob Marley, viram o time local vencer por 1 a 0 – e Cole superar o Rei Pelé, que, segundo a impressão dos jamaicanos, jogou a partida com o freio de mão puxado.

Skill, como a conta a biografia “Queimando Tudo”, tinha esperanças de receber uma oferta do Cosmos, mas o Gleaner, principal jornal da Jamaica, tratou de acabar com seu sonho no dia seguinte, em matéria cujo título era “Exame Minucioso para Cole”.

O presidente do time nova-iorquino, Clive Toye, não parecia especialmente encantado pelo futebol dele.

— Toye, o homem que decidirá se Cole vai jogar pelo Cosmos, teve “dúvidas acerca da dedicação do jogador, embora tenha sido bastante impressionado com seu domínio de bola e ache que ele teve ótima atuação, apesar de impetuosa, no jogo de domingo contra nós” – dizia o dirigente no jornal.

A passagem mal-sucedida no Brasil em 72 e a falta de interesse do Cosmos restringiram o sucesso de Skill ao futebol caribenho.

Assim, ele conseguiu, durante a maior parte do tempo, conciliar o futebol com a música – uma vez que seus clubes na Jamaica não exigiam dedicação exclusiva. O maior hiato foram os anos que passou na Etiópia, quando esteve afastado das atividades no outro ramo.

COMPOSITOR?

Além de empresário de Bob Marley , Cole surge como compositor de músicas de sucesso. Seu nome consta como co-autor de “Natty Dread”, “Jhonny Was” e “Rat Race”, além de “War”.

Talvez, não sendo muito afeito ao reggae, você não as conheça pelo nome. Mas muitas delas são famosas, especialmente a última. Há um trecho de “War”, por exemplo, que apresenta 27 milhões de resultados no Google em inglês.

— Enquanto a cor da pele for mais importante do que o brilho dos olhos, haverá guerra.

Embora leve o crédito pela música, Cole não é exatamente o compositor dela. O texto é de um discurso que o ex-imperador etíope Haile Selassie, uma espécie de divindade para os rastafaris, fez em 1936 na Liga das Nações (a antecessora da ONU). Skill apenas deu a ideia para que os Wailers musicassem aquelas palavras, escritas originalmente pelo monarca (o mesmo que acabou derrotado pelos comunistas quando Cole jogava na África).

A sacada foi esperta: “War” transformou-se num hino antirracista muito popular em todo o mundo. Virou célebre a ponto de ser uma tatuagem comum – como a que está na coxa esquerda de Vinícius Júnior, atacante do Real Madrid e ex-Flamengo.

Vinícius Júnior, do Real Madrid, tem citação de música "composta" por Allan Cole na coxa - Reprodução/Instagram

Vinícius Júnior, do Real Madrid, tem citação de música “composta” por Allan Cole na coxa – Reprodução/Instagram

Roger Steffens, porém, afirma que Cole supervaloriza o papel que teve na composição das outras músicas.

— Skill nunca escreveu nenhuma das canções, garante.

Segundo o historiador do reggae, Bob Marley tinha o costume de colocar o nome de amigos nas músicas para driblar o pagamento de direitos autorais de um contrato que ele assinara anos antes com o produtor Danny Sims e se arrependera. Não havendo seu nome, ele faturava mais.

Cole contesta essa versão e garante que é, sim, o autor real dessas canções, por cujos direitos autorais briga até hoje na Justiça.

— Essas canções são partes da minha contribuição no que diz respeito ao Reggae.

POLÊMICAS

 

A vida de Allan Cole teve algumas controvérsias. Em 2002, por exemplo, ele foi flagrado com 149kg de maconha em casa. Acabou condenado cinco anos depois a 18 meses de prisão e ao pagamento de uma multa de cerca de R$15 mil dólares, de acordo com a agência de notícias Reuters e o portal G1.

Roger Steffens, que já entrevistou Cole várias vezes ao longo dos últimos 30 anos, lembra com humor de como ficou sabendo que Skill havia ido em cana.

— Falei com um amigo jamaicano sobre esse episódio. Skill já tinha saído da prisão. Eu perguntei: “Como você é solto quando acham 149 kgs de maconha na sua sala?” E ele disse: “Uso pessoal”. Eu fumei todos os dias da minha vida por 53 anos e talvez não tenha fumado tudo isso – diz, sem conter o riso.

Até a amizade entre Bob e Cole, ainda que duradoura, não foi livre de polêmicas. A mais ruidosa delas aconteceu em 1976. Na noite de três de dezembro, sete homens armados entraram na casa de Marley, o número 56 da Hope Road, e fizeram um atentado contra a vida do cantor, sua família e seus amigos.

Baleado no peito, Bob não morreu. Rita, alvejada na cabeça, também não. Assim como, milagrosamente, nenhum dos outros dois amigos que foram atingidos.

A suspeita sobre a autoria do crime permanece até hoje.

Surgiram várias hipóteses, uma das quais envolvia Skill, conhecido no país por ser apostador de corridas de cavalos. De acordo com boatos não confirmados, o jogador tinha dívidas com a máfia que controlava a atividade na Jamaica. Bob teria assumido esses débitos, mas parara de pagar, razão pela qual teria sido alvo do ataque.

Essa possibilidade é mencionada rapidamente e descartada no documentário “Who shot the sheriff”, da Netflix, que especula as razões para o atentado que tentou tirar a vida do maior ídolo do país caribenho.

Roger Steffens, após muito se debruçar sobre o assunto, também trata a suspeita sobre Cole como fantasiosa.

A tese mais aceita é de que os autores do crime foram motivados por uma intrincada trama política, que envolve os dois partidos políticos que disputavam o poder (um era de direita, ligado aos Estados Unidos, o outro, de esquerda, mais próximo da União Soviética) e um show pela paz que Bob fez em 1976. É o que o próprio Skill acredita que tenha acontecido.

— Foi um incidente muito infeliz, um página negra na nossa história. Eu estava em Nova York na noite em que isso aconteceu.

Allan Cole mata bola no peito - Steven Golden/Cortesia

Allan Cole mata bola no peito – Steven Golden/Cortesia

AMIZADE ATÉ O FIM

Bob nunca deu bola para as suspeitas contra Cole. Tanto que eles se mantiveram amigos e foram parceiros nas muitas excursões pelo mundo. Àquela altura, Skill já não tinha poder de decisão na carreira de Bob, mas continuou viajando e fazendo companhia ao amigo. Dormindo, acordando, indo a festas, shows e – por que não – fumando juntos maconha, outro elemento sagrado da cultura rastafári.

— Muitas vezes ele era a primeira pessoa que eu via ao acordar e a última ao domir. Temos lembranças felizes, fizemos muitas turnês juntos. Éramos amigos, irmãos.

Os dois tinham o costume de jogar futebol contra artistas ou jogadores locais quando estavam em viagens. Cole diz, sem falsa modéstia, que Bob virou um jogador melhor ao conhecê-lo.

Quando não conseguiam agendar peladas, eles praticavam cooper. A última dessas sessões aconteceu em setembro de 1980. Bob se preparava para um show em Nova Iorque e fora com Cole e parte do seu entourage ao Central Park. Queria correr ao ar livre. “Energizar-se”.

Os dois amigos se separaram do pelotão para acelerar o ritmo. No meio da corrida, porém, Bob começou a sentir o corpo falhando. Quando se virou para pedir ajuda a Cole, as pernas não sustentaram mais o seu peso. Ele desmaiou. Foi socorrido pelo amigo e levado ao hotel, onde esperaram pelo médico de Danny Sims, seu principal produtor.

O diagnóstico era terrível: o melanoma, uma espécie de câncer que ele tinha desde 77, havia se espalhado. A negligência no tratamento da doença custou caro. Em vez de debalada no início, ela estava em processo de metástase. Chegara ao cérebro que havia composto músicas de prestígio internacional e conferido àquele jamaicano o título de rei do Reggae.

 

Bob, aos 35 anos, estava com os dias contados.

 

Rita Marley, a esposa de Bob, conta em seu livro “No Woman No Cry” que o marido só lhe revelou no dia seguinte que estava com câncer.

— Foi como se meu coração tivesse sido arrancado do meu corpo, escreve.

Quando o cantor contou à esposa, eles já estavam em Pittsburgh para um show. Temendo por Bob, Rita tentou impedi-lo de subir ao palco.

Conversou com os empresários, inclusive Cole, gritou, esperneou. Mas todos foram unânimes ao afirmar que os médicos liberaram Bob a se apresentar, uma vez que, sentenciado à morte pelo câncer, um show a mais não faria diferença.

Os apelos de Rita não foram ouvidos. Bob apresentou-se. Mas, na passagem de show, chamou o amigo de lado e confiou-lhe uma missão.

— Allan, não fique muito longe.

Bob não queria ser visto em posição vulnerável e temia um eventual desmaio ou mal-estar no palco. Por isso, caso a saúde do cantor lhe deixasse na mão, o melhor amigo deveria ficar perto do palco e tirá-lo de lá discretamente.

A intervenção de Cole não foi necessária. Bob cantou, dançou e sacolejou os braços e o corpo como sempre fazia. Ninguém no Stanley Theatre poderia suspeitar que aquele seria o último show da vida do Rei do Reggae.

Mas foi.

Depois dali, Bob voltou a Nova Iorque para sessões de quimioterapia que lhe tiraram os dreadlocks mas não lhe repararam a saúde. Ele ficou mais magro e definhou – sem a contrapartida positiva. O tratamento agressivo não impediu o tumor de continuar sua marcha implacável pelo corpo de Bob.

A última esperança do cantor foi uma terapia experimental proposta pelo médico alemão Joseph Issels. Bob ficou sete meses em tratamento na Europa, mas não resistiu. Foram dias tristes e frios até que ele morresse em 11 de maio de 1981.

Em muitos dos últimos dias, Bob teve a companhia de Allan Skill Cole.

— Ficamos sete meses lá lutando, até que ele perdeu a batalha. Eu passei todo esse tempo, até os últimos dias, com o meu irmão.

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Fonte: Ge – Globo Esporte.

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